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Argentina dribla o Brasil, no comércio

Veículo: O Globo
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Data: 30/05/2010

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Não é de hoje que o governo argentino recorre a uma série de expedientes para dourar a pílula diante das notórias dificuldades nas áreas econômica, financeira e comercial. Um dos fatos que se tornaram símbolo dessa atitude foi, e tem sido, a...

O Globo - 30/05/2010 

Não é de hoje que o governo argentino recorre a uma série de expedientes para dourar a pílula diante das notórias dificuldades nas áreas econômica, financeira e comercial. Um dos fatos que se tornaram símbolo dessa atitude foi, e tem sido, a manipulação dos índices de inflação do instituto oficial Indec, para reduzilos e disfarçar uma das consequências desfavoráveis da política econômica do governo. O país até consegue manter números expressivos de crescimento da economia — que foi ao fundo do poço na crise de 2001/2002 —, mas enfrenta problemas advindos ainda da moratória da dívida externa, já que nem todos os credores aceitaram o reescalonamento proposto pelas autoridades argentinas. Com isto, escasseia o crédito externo, e o governo é obrigado a manobras exóticas para manter saldos comerciais com o exterior.

O mais incrível é que uma das maiores vítimas dessas manobras seja o principal parceiro comercial da Argentina — o Brasil, seu sócio estratégico no Mercosul. Não menos incrível é que as autoridades brasileiras venham aceitando isso com placidez, no entendimento de que é preciso preservar o parceiro.

Assim, chegamos ao ponto em que um dos principais países do Mercosul descumpre as suas regras e o Brasil, âncora do bloco comercial, o aceita. É necessário preservar o Mercosul, mas esta é uma responsabilidade de todos.

Até recentemente, o governo da presidente Cristina Kirchner vinha recorrendo a meios de proteção da economia argentina previstos em acordos internacionais, embora incompatíveis com os objetivos do bloco. Mas até aí houve abusos, como a demora de 60 a 180 dias para emissão das licenças.

Mas agora a situação extrapolou com a decisão do secretário do Comércio Interior, Guillermo Moreno, de proibir importadores e donos de supermercados de comprar do Brasil alimentos similares aos produzidos localmente. Ele o fez de maneira não oficial, como é do seu estilo, através de telefonemas a empresários do setor de alimentos.

É certo que a Argentina vem perdendo poder de competição diante do Brasil, o que provoca rusgas entre os dois parceiros comerciais. Entretanto, as autoridades brasileiras não podem continuar aceitando os expedientes de que Buenos Aires vem lançando mão para barrar a entrada de produtos importados.

Os argentinos alegam que suas decisões têm em vista a concorrência da China, classificada por eles como “desleal”. Mas a verdade é que a produção brasileira também é atingida, o que é um contrassenso do ponto de vista do Mercosul. De forma alguma cabe a observação depreciativa do assessor de política externa do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, de que o secretário Moreno “é o sub do sub”. Não é. Trata-se de um dos principais integrantes da equipe da presidente Cristina Kirchner e goza de toda a sua confiança.

Truculento, joga pesado contra os adversários, até com ameaças de agressão física.

Aos 200 anos da independência, a Argentina se arrasta em longa crise institucional, em cujo centro está o peronismo, obstáculo à modernização das relações entre Estado e sociedade.

Para agravar o cenário, o casal Kirchner adota o estilo de governar pelo confronto.

Mesmo quando, do outro lado da mesa, está um aliado do peso e importância do Brasil.

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