Indústria de vestuário pode ser sustentável

Veículo: Portugal Têxtil

Apesar da indústria de vestuário estar a viver um período cinzento no que toca a questões ambientais, a verdade é que ainda há esperança para reverter a situação se todos se comprometerem a mudar radicalmente as suas práticas. Um novo estudo diz que assim serão precisos 16 anos para o sector tornar-se sustentável.

Os especialistas da indústria de vestuário global projetam um cenário sombrio para o futuro da moda se o sector continuar a ter a mesma postura de negócio que tem revelado até ao momento. Ainda assim, de acordo com um estudo da C&A Foundation, é possível melhorar a situação.

O estudo “The Future of Sustainability in the Fashion Industry” analisa a direção atual da indústria do vestuário e preconiza as medidas necessárias para que o sector encontre outro caminho, mais amigo do ambiente. Na atualidade, a indústria de vestuário é um dos sectores mais poluentes a nível global e os salários baixos e a exploração de trabalhadores continuam a ser pontos comuns nas cadeias de aprovisionamento.

«Nem as pessoas nem o planeta estão a ter um bom acordo e embora algumas indústrias estabeleçam grandes compromissos, os especialistas consideram que os mesmos não vão muito longe», afirma a C&A Foundation. «Se as práticas atuais se mantiverem, 75% dos inquiridos acreditam que será impossível terem um impacto positivo no ambiente e 62% asseguram que o trabalho em condições precárias continuará sem solução. Enfrentamos um futuro onde os trabalhadores e o ambiente vão continuar a sofrer em nome da moda».

Contudo, alcançar uma indústria de moda sustentável é possível – e os especialistas asseguram que tal poderá ser alcançado dentro de 16 anos.

Medidas a implementar

«Uma das descobertas fantásticas deste estudo é que ele vai de impossível para possível. Os especialistas confiam que, com os devidos esforços, isto pode realmente acontecer», explica Kacper Nosarzewski, um dos autores do relatório e sócio da analista de dados 4CF.

O relatório descreve 14 estratégias de sustentabilidade – maior consciencialização global, inovações em fibras e processos, relatórios de sustentabilidade extremamente detalhados, iniciativas para os trabalhadores, alta concentração/cooperação, responsabilidade alargada do produtor, salários na indústria da moda, revolução da automação, economia circular, índice de sustentabilidade do nível do consumidor, revenda/modelos em segunda mão, a maioria do vestuário é produzido localmente, políticas fiscais para promover a sustentabilidade – em que cada uma é avaliada pelo potencial impacto, pelo prazo mais curto em que se possa efetivar e também por ordem de prioridade estratégica.

Todas estas medidas são possíveis de implementar até 2035 e dois terços podem ser alcançadas dentro de uma década se efetivamente a indústria realizar mudanças neste sentido, aponta o relatório.

«Não basta ter sucesso numa só vertente, como por exemplo inovações em fibras e pocessos. Precisamos de ver uma ação mais coordenada em todas as áreas de atividade. E onde virmos sinais positivos de mudança temos que garantir que essas medidas estejam distribuídas e implementadas de forma muito mais ampla», garante Cornelia Daheim da Future Impacts, outra autora do estudo.

Concretizar

A introdução de normas para relatórios de sustentabilidade altamente detalhados e transparentes será fundamental, enquanto uma das prioridades imediatas é criar um movimento de consciencialização global que beneficie da maior preocupação com as questões de sustentabilidade, à semelhança do movimento greve escolar pelo clima (Friday for Futures) e de Greta Thunberg, entre outros, refere o relatório.

«A indústria reconhece amplamente que as coisas precisam de mudar; agora podemos ver até onde essa mudança tem de ir. As marcas e os players da indústria dispõem de um conjunto de ações claras para terem um impacto positivo», reconhece Lee Alexander Risby, diretor de filantropia na C&A Foundation, patrocinadora do relatório. «Isso vai exigir um grande esforço de cooperação por parte de marcas, governos, legisladores políticos e até consumidores. Mas contra o contexto de maior preocupação com questões de justiça social e ambiental, podem ocorrer mudanças positivas rapidamente. Este é um apelo à ação cheio de esperança para que a indústria avance e faça isso», admite.