Com reforma adiada, como devem reagir os mercados

Veículo: O Estado de S. Paulo

A proposta de reforma da Previdência Social ainda tramitava na Câmara na sexta-feira, sem sinais mais confiáveis de que passaria pelo crivo dos deputados em segundo turno antes do recesso parlamentar, que começa no dia 18. A dúvida aparentemente não parecia perturbar o mercado financeiro, que vem antecipando e expressando, em suas decisões, o sentimento de que, cedo ou tarde, as mudanças na aposentadoria serão sacramentadas pelo Congresso.

A frustração da expectativa de votação em segunda rodada pela Câmara – com data confirmada para agosto apenas no início da noite de sexta-feira –, porém, pesou no ânimo dos mercados, no fechamento dos negócios do dia. Causa certo desconforto o temor de que o adiamento da segunda rodada de votação, após a aprovação da proposta com estrondoso número de votos no primeiro turno, iniba o apetite reformista dos parlamentares na retomada dos trabalhos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, prevê nova votação em 6 de agosto.

Em meio ainda a alguma incerteza com a economia final a ser obtida com a reforma, por causa de emendas e destaques acoplados ao texto base na tramitação em plenário após a aprovação em primeiro turno, a expectativa de analistas é que os mercados se ocupem de promover ajustes em todos os segmentos, de ações ao de dólar, passando por juros, mas já de olho no período pós-aprovação da reforma. Um processo de correção dos preços dos ativos que tende a se intensificar no segundo semestre, avalia Rodrigo Franchini, responsável pela área de Produtos da Monte Bravo.

“É um processo que deve ocorrer em todos os mercados, em um ajuste linear de juros e de cotações, para um horizonte de médio e longo prazo que tende a provocar um pouco mais de volatilidade no mercado financeiro”, avalia o executivo. Os investidores tendem a aproveitar a safra de notícias mais fraca sobre a reforma, durante o recesso parlamentar, para promover uma remodelação de carteiras, de acordo com os resultados obtidos até agora e as perspectivas pós-reforma, quando se esperam as medidas para tentar ativar a economia.

A expectativa é que o ajustamento reforce a volatilidade nos mercados, seja pelas especulações sobre as reformas econômicas, seja sobre as medidas de estímulo à atividade que o mercado financeiro espera. “Os investidores, nessa nova fase, vão querer saber, para além da reforma previdenciária, como vai ficar a economia real, se na prática as medidas vão sinalizar crescimento para o próxima ano.”

Franchini considera que o simples anúncio das medidas, expressas em ideias e intenções, do que o governo pretende fazer para a retomada consistente da atividade econômica já seria um avanço importante do ponto de vista das expectativas do mercado financeiro.

Nessa tarefa, o governo teria a seu favor um cenário externo altamente favorável, de elevada liquidez e abundante oferta de capitais combinada com a perspectiva de redução adicional das taxas de juro nas principais economias desenvolvidas, em países da Europa, Japão e Estados Unidos.

“O que o País precisa é atrair esses capitais, para investimentos produtivos de longo prazo, em um ambiente propício ao crescimento econômico, mas para isso precisa fazer a lição de casa”, destaca o executivo da Monte Bravo. Uma agenda de medidas que inclui, entre outros pontos, a reforma tributária e investimento pesado em infraestrutura, com iniciativas sobretudo para deslanchar as concessões e as privatizações.

É em torno dessas expectativas que o mercado financeiro deve movimentar os negócios daqui para a frente, confiante na aprovação de mudanças no sistema de aposentadoria, que precisam ser concluídas na Câmara e passar ainda por votação em dois turnos no Senado.

Analistas não descartam um ajuste para baixo da bolsa de valores, também por causa da valorização acumulada até agora, de 2,90% no mês e de 18,20% no ano, movimento que pavimentaria o segmento para novas altas, em busca de patamares ainda mais elevados.

Anima a expectativa de especialistas para o mercado de ações uma série de fatores positivos – avanço da reforma previdenciária no Congresso, inflação baixa e controlada, perspectiva de nova redução dos juros básicos, cenário externo favorável – que, combinados, teriam tudo para impulsionar a valorização das ações.

Faltaria então o crescimento do País, que viria em um ambiente de negócios mais confiável, após ações firmes e concretas do governo, uma agenda que inclui reformas econômicas e medidas de estímulo à retomada.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou a sexta-feira com desvalorização de 1,18%, em 103.906 pontos, e acumulou baixa de 0,18% na semana.

O dólar recuou 0,33% na sexta-feira, na quarta queda consecutiva, para R$ 3,74, e encerrou a semana com desvalorização acumulada de 2,11%.