Bandeira verde pode trazer deflação este mês

O país poderá registrar a primeira deflação do ano em junho, graças à combinação de uma inesperada bandeira verde nas contas de luz, queda do preço dos combustíveis e redução sazonal do preço dos alimentos. No acumulado de 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve cair de quase 5% em abril para menos de 3,5% neste mês. 

"Para junho, estávamos esperando um IPCA levemente positivo, antes de tomar conhecimento da bandeira verde e também da redução do preço da gasolina. Com essas duas novidades se torna factível um número negativo em junho", diz André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IbreFGV). 

Na sexta-feira, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou que a bandeira das contas de luz será verde, sem custo adicional para o consumidor. Segundo a agência, apesar de junho ser um mês típico de seca, a previsão hidrológica para o mês superou as expectativas, indicando tendência de vazões acima da média histórica para o período.

Também na sexta, a Petrobras anunciou uma redução de 7,1% no preço da gasolina e de 6% no valor do diesel nas refinarias. Na semana anterior, a estatal já havia anunciado redução de 4,43% no preço médio da gasolina.

O economista da FGV estima que a passagem da bandeira amarela para verde deve reduzir em 0,7% as contas de luz, com impacto de 0,02 ponto percentual sobre o IPCA de junho. Já a redução de preços da gasolina - que tem maior peso na inflação do que o diesel - deve ser de 2,5% para os consumidores, com efeito de 0,1 ponto percentual (p.p.) na inflação. Com esses dois movimentos e uma expectativa de deflação dos alimentos no mês, Braz projeta preliminarmente queda de 0,08% para o IPCA em junho, que levaria o acumulado de 12 meses para 3,4%, depois de um pico de 4,94% em abril.

Em relatório, a MCM Consultores estima que as contas de luz deverão ter redução ao redor de 1,8% como resultado da adoção da bandeira verde em junho. "Assim, nossa projeção para a inflação neste mês ficará próxima de 0,10%", escreve a equipe da MCM.

Em abril, último resultado disponível, o IPCA teve variação de 0,57% e de 0,35% no IPCA-15 de maio. O resultado para o IPCA fechado de maio será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sexta feira.

Tem muito risco de o IPCA de junho ser negativo", avalia Fabio Romão, analista de inflação da LCA Consultores. O economista projeta por ora o IPCA de junho em alta de 0 02% Sem a bandeira verde a estimativa seria de 0,09%, e, sem a queda de preço da gasolina, de 0,24%, estima Romão. 

O analista lembra que, em junho de 2018, o IPCA registrou uma variação mensal atípica, influenciada pela greve dos caminhoneiros no mês anterior, de 1,26%. Desconsiderando o ano passado, a mediana para a inflação em junho é de 0,26% nos dez anos anteriores. Com a saída do dado de junho de 2018 do acumulado de 12 meses, a inflação nessa medida deve desacelerar dos 4,94% de abril, para 3,41% em junho, novamente abaixo da meta para este ano (4,25%).

Também devido à surpreendete bandeira verde em junho, a LCA revisou para baixo sua estimativa para a inflação em 2019, de 4% para 3,9%. "Mudei minha perspectiva para a bandeira no fim do ano, esperava que ela chegaria a dezembro amarela, e passei a acreditar que ela vai fechar em verde", explica Romão.

O economista avalia que há mais pressões baixistas do que riscos de alta para a inflação à frente. Para os alimentos, por exemplo, Romão prevê deflação de 0,54% em maio e 0,30% em junho, devolvendo as fortes altas do início de ano, sob efeito de intempéries climáticas e das quebras de safra.

Já os riscos de pressão sobre a inflação mais relevantes adiante são o efeito da peste suína na China sobre o preço das carnes e dos riscos à reforma da Previdência e da guerra comercial no exterior sobre o câmbio. A peste suína deve acrescentar 0,26 p.p. à inflação neste ano, com efeito concentrado no último quadrimestre, e 0,17 p.p. ao IPCA de 2020, com maior peso no primeiro trimestre, estima Romão.

Para o câmbio, o cenário-base da LCA é de um dólar no fim do ano a R$ 3,80, com o IPCA em alta de 3,9%. Já no cenário adverso, a moeda americana iria a R$ 4,30, e o índice oficial de inflação, a 4,6%. 

Veículo: Valor Econômico

Seção: Brasil