Falta de reação preocupa "economia real"

Acompanhando as avaliações dos economistas de bancos e consultorias, que têm reduzido nas últimas semanas as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2019, a preocupação com os rumos da economia também pode ser verificada nos relatórios, análises e declarações de executivos após a divulgação dos balanços do primeiro trimestre.

Mesmo empresas que registraram bons resultados no período veem com desconfiança as perspectivas para o ano em meio a um cenário político conturbado, com desarticulação do governo no Congresso Nacional, que coloca em risco a aprovação de uma reforma da Previdência que gere economia relevante para o país. 

É o caso da operadora de shopping centers Sonae Sierra, que teve aumento de lucro (17,2%) e receita (5,9%) no primeiro trimestre. Durante teleconferência para comentar os resultados trimestrais, o presidente da companhia, José Baeta Tomás, afirmou que o mês de abril também registrou bons números, mas "os ventos que parecem surgir não são tão favoráveis". Na ocasião, ele apontou o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado naquele dia, mostrando queda de 0,7% no primeiro trimestre sobre o quarto trimestre de 2018. Para Tomás, os dados indicam que o quadro é de retomada lenta da economia.

O presidente da Cia. Hering, de vestuário e acessórios, que também teve aumento de lucro e receita no período, e bem acima das expectativas, mostrou preocupação. "A gente sentiu empolgação dos consumidores no início do ano, mas há certo ceticismo agora. Não sei se esse bom humor se sustenta no futuro próximo", disse Fabio Hering. 

A calçadista Grendene registrou queda forte, de 29,5%, nas vendas para os mercados interno e externo. A empresa disse não acreditar na recuperação doméstica do setor neste ano. "Depois da eleição presidencial houve euforia com a economia e na bolsa. Mas o governo começou e nada de acontecer a esperada recuperação", afirmou Francisco Schimitt, diretor financeiro da empresa. A queda das vendas foi maior nos produtos destinados à classe C. O nível de estoques aumentou. Estoques mais altos, inclusive, foi um tema recorrente nas teleconferências das empresas nessa temporada. 

No segmento de telecomunicações, o presidente da TIM Brasil, Pietro Labriola, observou que a "confiança do consumidor está se deteriorando e a taxa de desemprego ainda está elevada". Mas ele ponderou que a expectativa é de reverter esse resultado nos próximos meses.

Christian Gebara, da Telefónica Brasil, dona da Vivo, afirmou que a expectativa para aprovação da reforma da Previdência é positiva, mas ainda não viu sinais claros de melhora da economia. "Os indicadores relacionados ao [consumidor] pré-pago [como taxa de desemprego] não têm uma evolução positiva. Existe uma melhora, mas nada significativo e abaixo da expectativa", disse. 

A Duratex diz que o crescimento das vendas da empresa no ano será um pouco menor que o inicialmente esperado. Henrique Haddad, diretor de relações com investidores, atribui essa expectativa mais baixa a um atraso na tomada de decisões políticas e à economia "um pouco morna". 

No segmento de alimentação, o Burger King esperava aceleração maior da economia neste ano. A companhia agora espera resultados melhores no segundo semestre. A M. Dias Branco, fabricante de alimentos, teve as margens mais fracas em dez anos devido ao aumento dos custos e queda nas vendas. Analistas do BB Investimentos consideraram que a empresa tem pequeno espaço para recuperação de margens por causa, entre outros motivos, do cenário incerto para a economia.

Na indústria de base, o segmento siderúrgico tem um cenário desafiador, segundo analistas. Na Usiminas, o volume de vendas caiu 8% no primeiro trimestre ante 2018. O resultado reflete a conjuntura atual da economia que, segundo o presidente da empresa, Sergio Leite, apresentou um ritmo aquém do esperado para o início do ano. Em análise sobre esse mercado, o banco Safra disse ver um cenário melhor para as siderúrgicas após a aprovação da reforma da Previdência e um setor externo favorável.

Associações setoriais têm reduzido suas projeções para o ano. A Aço Brasil revisou para baixo a expectativa de crescimento do consumo aparente de aço no país, de 6,2% para 4,6%, em função do desempenho da economia no primeiro trimestre. As vendas internas devem crescer 4,1%, de 5,8% estimados antes. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) espera alta de 1,5% na produção, ante 3% previstos anteriormente. "Não damos o ano como perdido, mas o PIB não tem crescido como esperávamos. A economia está andando de lado e sem força", segundo Fernando Pimentel, presidente da associação. 

A consultoria IDC disse que as vendas de celulares recuaram 6,8% em 2018 e devem cair 4,3% em 2019, para 42,5 milhões de unidades. É tendência mundial, mas por aqui também é reflexo da fraqueza da economia.

Veículo: Valor Econômico

Seção: Empresas