Expectativas pioram e acendem sinal de alerta na indústria, diz FGV

Um cenário de estoques ajustados, aliado a uma percepção de discreta melhora na demanda interna,levou ao aumento de 0,4 ponto na prévia do Índice de Confiança da Indústria (ICI) entre março e abril, para 97,6 pontos, anunciado nesta segunda-feira pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mas a mesma prévia aponta sinal negativo nas expectativas do empresariado - o que acende sinal de alerta para horizonte de longo prazo, avaliou Aloísio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). 

Para ele, é preciso esperar os próximos resultados para mensurar a tendência dos negócios do setor industrial nos próximos meses. No entanto, admitiu que as perspectivas não são boas, tendo em vista recentes revisões para baixo nas previsões de Produto Interno Bruto (PIB) para 2019; e aumento de dificuldades em aprovação de reformas, como a da Previdência. 

Na prévia, o Índice de Situação Atual (ISA), um dos dois sub-indicadores componentes do ICI, subiu 1 ponto, para 98,1 pontos entre março e abril. “Não é uma aceleração fortíssima [no ISA]”, comentou o especialista, reiterando que a melhora foi fortemente influenciada, ainda, por um movimento de ajuste de estoques, que foi realizado no mês anterior. 

Para o especialista, o sinal a ser acompanhado com atenção é o do Índice de Expectativas (IE), que em seu resultado preliminar caiu 0,2 ponto para 97,2 pontos, no mesmo período de comparação. “É a primeira vez no ano que [a pontuação do] ISA sinaliza ter passado o IE”, alertou, classificando o resultado das expectativas como “uma ducha de água fria” no humor do empresariado quanto ao futuro. 

Sem mencionar percentuais, o especialista informou que um dos tópicos que mais contribuíram para a piora do IE, em resultado preliminar de abril, foi tendência de negócios em horizonte de seis meses. Campelo observou que, caso confirmado o sinal negativo deste tópico no resultado completo do ICI de abril - a ser anunciado na próxima segunda-feira dia 29 de abril -, isso na prática significaria que pelo menos até setembro deste ano o empresário da indústria não percebe melhora nos negócios. O especialista da FGV classificou esse cenário como “desanimador”. 

“Podemos dizer que, para esse horizonte de tempo, os empresários não estão otimistas”, reconheceu. “Os negócios seguem em ritmo morno e talvez compradores e concorrentes estão esperando [para investir]” afirmou

Para Campelo, o empresariado aguarda um círculo virtuoso na economia, onde o governo aprove medidas para sanar a situação fiscal do país – e, com isso estimular investimentos, com aquecimento na economia, e resposta mais robusta na demanda interna. 

No entanto, o técnico admitiu que, pela ótica da pesquisa até o momento, o empresariado não está vendo essa possibilidade nos próximos seis meses. “O ISA mostra que não há piora no curto prazo. Mas, nas expectativas, há um compasso de espera, um ‘banho maria’ por parte do empresariado [para investir]”, concluiu ele. 

O resultado preliminar apontou ainda que a confiança não está subindo na maioria das grandes categorias de uso. Sem mencionar números, visto ser uma prévia, Campelo detalhou apenas que bens de capital, bens de consumo duráveis e bens de consumo não duráveis sinalizam confiança em queda em abril, no resultado preliminar. Apenas a indústria de bens intermediários, que tem o maior peso na formação da indústria da transformação, opera com confiança em alta - e sustenta sinal positivo na prévia do ICI em abril. 

“Temos que esperar os próximos resultados para saber se esse tópico de expectativa de negócios em seis meses vai cair ou vai subir”, reiterou. “Mas não acho que [as expectativas] terão melhora expressiva. Ou vão ficar neutras, ou vai cair”, admitiu ele. 

Veículo: Valor Econômico

Seção: Brasil