Elites faliram e não souberam propor alternativa, diz Zingales

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) faz parte da onda de líderes populistas que surgiram a partir da falta de respostas das elites política, econômica e intelectual para os problemas da economia mundial. Mas o brasileiro tem um diferencial em relação a outros membros do grupo: colocou, ao menos em um primeiro momento, "pessoas muito qualificadas para comandarem o governo". A opinião é de Luigi Zingales, economista italiano e professor da Universidade de Chicago, onde fizeram doutorado justamente duas das principais figuras do governo Bolsonaro: o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy.

Zingales viaja com frequência ao Brasil, que costuma comparar em tom de piada com o seu país de origem, a Itália. "Me sinto em casa toda vez que venho para cá. Temos o mesmo nível de corrupção, de intervenção governamental", diz.

Os principais destinatários dos elogios do economista são Levy e o ministro da Justiça, Sergio Moro. "Fiquei muito impressionado", diz a respeito do presidente do BNDES, que conheceu recentemente. Zingales também tentou contato com Guedes mais de uma vez por e-mail, a fim de convidá-lo para um podcast semanal que grava (Capitalisn't, um trocadilho que sugere que o sistema econômico não está mais funcionando como deveria), mas não teve sucesso. 

O fato de Zingales ter parte da equipe de Bolsonaro em alta conta não quer dizer, porém, que ele pense o mesmo do presidente. "Se Moro falhar [no combate à corrupção], isso se torna cada vez mais um governo de direita autocrático, o que obviamente é um desastre", afirma o economista e coautor do livro "Salvando o Capitalismo dos Capitalistas". 

A corrupção é tema central dos estudos de Zingales. Ele é um dos mais reconhecidos críticos do capitalismo de compadrio, sistema em que alguns setores empresariais específicos formam uma aliança econômica e política com o governo - combinação rica na produção de ineficiência e uso indevido de recursos públicos.

Se Bolsonaro recebe elogios por ao menos ter escolhido uma equipe capacitada, o presidente americano, Donald Trump, é alvo apenas de críticas de Zingales, para quem o atual ocupante da Casa Branca é praticamente a personificação do capitalismo de compadrio.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por telefone:

Valor: Na última vez em que esteve no país, o senhor falou que o capitalismo de compadrio foi uma das causas da recessão brasileira. O ministro da Economia, Paulo Guedes, promete implantar uma agenda econômica bastante liberal. O quanto isso pode impulsionar a economia do país? 

Luigi Zingales: Há grandes oportunidades e grandes riscos. A maior parte das pessoas confunde uma simples agenda liberal na economia com uma agenda contrária ao capitalismo de compadrio. Espero que o governo implante ambas, mas é importante diferenciá-las. Um exemplo é o Chile, um país com uma economia muito eficiente em relação à proteção dos direitos de propriedade, com um governo que desempenha um papel relativamente pequeno na economia. É um exemplo de país economicamente liberal, no sentido europeu da expressão. Mas, em relação ao sistema político, não é um país livre do que chamamos de "corrupção institucional". Um dos ativos mais valiosos do Chile são os direitos de pesca. Em vez de serem leiloados, eles são dados quase como um direito de nascença a uma família, a família Angelini [dona de diversas empresas, como a Corpesca ]. Quando houve as privatizações, o genro do [então presidente Augusto] Pinochet ficou com uma companhia de exploração de níquel. Surpreendentemente, a mesma companhia estava pagando - não sei se tecnicamente era suborno, mas financiando - o filho da [ex-presidente Michelle] Bachelet. Então, o nível de corrupção institucional está muito disseminado. No Brasil, diferentemente do Chile, há uma oposição muito mais ativa, que apontará esse tipo de coisa. 

Valor: E o que o ministro pode fazer para evitar isso?

Zingales: Tornar a economia mais eficiente, mas também tentar erradicar a corrupção que existe no Brasil, começando pelo BNDES. A presença de Joaquim Levy no banco é uma ótima notícia, porque ele não apenas se formou aqui [Universidade de Chicago, onde fez doutorado] mas também é uma pessoa muito séria. Espero que também seja sério a respeito de erradicar a rede de corrupção institucional associada ao BNDES. Além disso, o fato de Bolsonaro ter escolhido Sergio Moro como ministro da Justiça cria uma esperança. O que é complicado, e discuti isso com meus amigos brasileiros muitas vezes, é que erradicar a corrupção é muito difícil, porque requer não apenas uma abordagem judicial dura, mas também uma mudança de mentalidade, algo muito mais complexo. Paradoxalmente o Brasil tem uma oportunidade que surge do desespero da situação. A gente não muda a não ser que precise. Portanto, é muito difícil imaginar que, com o país indo bem, haveria alguma mudança. Infelizmente as crises econômica e fiscal que o Brasil está enfrentando são um fato importante, que pode levar à mudança. 

Valor: Apesar das promessas de Paulo Guedes, Bolsonaro tem um passado bastante intervencionista em questões econômicas. E o Brasil também é um país com um histórico intervencionista. O sr. acredita que este é um ponto de inflexão para a economia brasileira?

Zingales: Eu não sei. A eleição de Bolsonaro me surpreendeu e, provavelmente, surpreendeu muitos brasileiros também. É muito difícil saber se ele realmente mudou ou se está fingindo. O que posso dizer é que outros líderes populistas ao redor do mundo não tendem a colocar pessoas muito qualificadas para comandar o governo. Bolsonaro não fez isso em todas as posições, mas em várias delas, o que é um bom sinal. É só uma manobra política ou ele está sendo sincero? Não sei, só o tempo vai dizer. 

Valor: O país está no meio de uma recuperação cíclica, mas ainda tem um déficit fiscal gigantesco e um problema com a Previdência também enorme. Por quais reformas estruturais Bolsonaro e Guedes deveriam batalhar? 

Zingales: O Brasil tem sido o país do futuro há muitas e muitas décadas, mas o futuro sempre acaba ficando no futuro. É crucial que o país entre em uma trajetória de crescimento mais alto. Na minha opinião, isso começa a partir do momento em que você torna mais fácil fazer negócios, mas também melhorando a educação, porque parte da dificuldade para atingir um crescimento sustentado, que não seja apenas ligado a commodities, é a falta de uma educação disseminada. É impossível competir no século XXI sem um bom sistema educacional para todos, e essa deveria ser uma das prioridades de longo prazo. No curto prazo, o governo precisa atacar uma potencial crise recorrente [ligada ao desequilíbrio fiscal]. Como italiano, posso dizer que o custo das promessas previdenciárias feitas para o futuro é gigantesco, e é difícil reverter isso. O Brasil está encarando a sua última oportunidade, porque ainda tem uma estrutura demográfica razoável, diferentemente da maioria dos demais países ocidentais, mas isso não vai durar para sempre. Se o governo não intervir agora, o custo no futuro será gigantesco. É só acompanhar o que a Itália está passando para entender quão doloroso isso é. 

Valor: A respeito da Lava-Jato, o sr. já afirmou que, "se houver uma postura muito dura no combate à corrupção, poderá acabar paralisando muitos investimentos públicos e muitos investimentos de maneira geral". Apesar disso, o saldo da operação é positivo?

Zingales: O julgamento final depende do que acontecer com o governo Bolsonaro. Eu lembro de vir ao Brasil logo após [o auge] da Lava-Jato e dizer: isso é fantástico, mas lembrem que a Operação Mãos Limpas na Itália ajudou a eleger o [ex-primeiro ministro Silvio] Berlusconi e trouxe ainda mais corrupção na sequência. Todo mundo dirá que o Brasil é diferente, e é mesmo, já que escolheu Bolsonaro em relação a [alguém parecido com] Berlusconi, duas pessoas obviamente diferentes. Se Sergio Moro tiver poder, e este momento for um passo para limpar o sistema, isso faria da Lava-Jato um sucesso. Se Moro falhar, isso se torna cada vez mais um governo de direita autocrático, o que, obviamente, é um desastre. Então, o julgamento final ainda está pendente e depende do que acontecerá neste governo. 

Valor: Bolsonaro é um político de direita, com opiniões extremas a respeito de muitas questões comportamentais. O sr. enxerga alguma contradição entre essa postura e a agenda econômica liberal dele?

Zingales: Essa contradição existe na maioria dos países. Nos Estados Unidos, não é óbvia a razão pela qual pessoas que querem decidir o que os outros podem ou não fazer em suas vidas são muito abertas em termos econômicos. Por que valores sociais conservadores são associados a reformas mais pró-mercado? Não é óbvio. Essas contradição não é exclusiva de Jair Bolsonaro. Ele é ainda mais extremo, mas eu não diria que é tão diferente de um republicano dos Estados Unidos. 

Valor: O sr. também já disse que o presidente Donald Trump está mudando a face do capitalismo americano para sempre. Por quê?

Zingales: Um dos meus mantras preferidos é tentar diferenciar as políticas prónegócios que apenas ajudam os empresários atuais das políticas pró-mercado que tentam torná-lo mais competitivo e funcionando melhor para todo mundo. Trump incorpora a versão pró-negócios. Todas as suas nomeações são feitas tentando favorecer os negócios já existentes e eliminar regulações, não porque elas são um fardo grande demais, mas porque reduzem os lucros dos seus apoiadores. Inclusive, a forma como ele promoveu cortes de impostos foi direcionada para um lado específico da comunidade de negócios. Meu medo é que isso afete a imagem do capitalismo nos Estados Unidos por um longo tempo. Suspeito que em 2020 (ano da próxima eleição presidencial) veremos diversas propostas radicais, com chances de que uma delas seja adotada por um novo presidente. Estamos no meio de mudanças nos Estados Unidos em razão das políticas e da abordagem de Trump. 

Valor: O sr. disse em entrevistas que já enxergava em 2011 a ascensão política de Trump, mas optou por deixar isso fora do livro que estava escrevendo na época. Por que pensava dessa maneira?

Zingales: O livro que eu estava escrevendo na época ["Um capitalismo para o povo - Reencontrando a chave da prosperidade americana", na tradução em português] descrevia como os Estados Unidos estavam ficando cada vez mais parecidos com a Itália, meu país natal, não por causa da boa comida e dos bons vinhos, mas por causa das coisas ruins. Um passo importante dessa parábola da Itália é o período do Berlusconi. Quando estava escrevendo o livro e vi esse paralelo [entre os dois], Trump estava flertando com a ideia de se candidatar a presidente. Ele acabou desistindo e optou por não concorrer naquela ocasião. Mas, quando ele estava flertando, imediatamente - e não precisava ser um gênio para ver isso, acho que qualquer italiano enxergaria - vi a imensa quantidade de similaridades entre Trump e Berlusconi. Começando pelo fato de ambos serem magnatas do setor imobiliário, que é o negócio menos competitivo da face da Terra, porque é um negócio principalmente de relacionamentos: se as autoridades darão um alvará, se você conseguirá autorização para isso, autorização para aquilo, etc. Eles dizem representar o mercado livre, mas na verdade representam o capitalismo de compadrio.

Valor: Ainda assim, o sr. defendeu recentemente que é importante entender melhor o movimento alt-right (direita alternativa americana, apoiadora de Trump). Por exemplo, convidou Steve Bannon (ex-conselheiro do presidente americano) para um debate na Universidade de Chicago, apesar dos protestos de estudantes...

Zingales: Sem dúvida, porque acho que a razão desarma a rejeição ao sistema capitalista tradicional. Também quero entender de onde vem essa rejeição e saber o que é possível fazer para ao menos diminui-la, se não der para acabar com ela.

Valor: Muitos brasileiros chamam Bolsonaro de "Trump da América do Sul". O próprio Trump lembrou disso no começo deste mês, em um evento em New Orleans. O sr. enxerga similaridades entre eles?

Zingales: Bolsonaro é muito mais agressivo em seus discursos do que Trump - o que era impossível para a maior parte das pessoas. Há similaridades, mas há muitas diferenças. Bolsonaro está na política há muito tempo, não é um novato, não é um homem de negócios e não é, até onde eu sei, alguém muito rico. São diferenças importantes. O segundo ponto é que Bolsonaro precisa de maioria no Congresso, pelo menos nos dois primeiros anos de mandato. Trump tinha maioria sólida de congressistas republicanos na Câmara e no Senado, que em larga medida o apoiaram. Bolsonaro precisa conquistar esses votos diariamente no Congresso, o que é uma vantagem, porque dificulta que ele leve suas propostas para os extremos.

Valor: O vice-premiê e ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, também se encaixa nessa categoria de populistas? 

Zingales: Eu concordo plenamente. É uma história muito simples. Quando o establishment falha e não percebe que falhou, alguém aparece e esse alguém inevitavelmente será um extremista, porque, se ele é parte do establishment, não pode ser parte da solução. No Brasil, a combinação de corrupção e crime foi inacreditável, e aqueles que estavam no cume não perceberam o problema em toda a sua extensão e não tiveram a coragem para se renovar. O resultado foi que as pessoas estavam tão desesperadas que acabaram indo em direção a Bolsonaro. Na Itália, não temos um, mas dois problemas. Há a questão da imigração, que não é tão dramática quanto Salvini quer fazer parecer, mas ela existe. Particularmente, há uma contradição fundamental entre a ideia de Europa e a maneira como os imigrantes são tratados na Europa. Se sou um refugiado na Itália, não posso ir para a Alemanha, preciso ficar na Itália. Nenhum político novo teve a coragem de tratar isso como uma questão [importante]. E a imigração feita dessa maneira favorece prostituição e a máfia. Há diversos refugiados que estão presos na Itália, onde não há trabalho para eles, e ficam, por muitos meses, senão um ano, até sem permissão para trabalhar. O que eles farão? Esse é o maior presente que você poderia dar para a máfia. 

Valor: Há um fator comum que explica a ascensão de Trump, Bolsonaro e Salvini? 

Zingales: O fator comum é a falência das elites e a sua inabilidade para propor uma alternativa. 

Valor: Qual seria a solução?

Zingales: Não é fácil apontar, e depende de cada caso. Mas em relação ao Brasil é mais fácil dizer: é abraçar a luta contra a corrupção como uma boa luta. Também é preciso reconhecer que, se você quer que o país avance, as normais sociais têm que mudar. No Brasil e na Itália, a maior parte das pessoas paga alguma forma de suborno, senão elas não fazem negócios. No entanto, são essas pessoas que fazem dos subornos um modelo de negócios. Outros basicamente extorquem. Se um não for separado do outro, será muito difícil avançar.

Valor: O sr. está preocupado com o estado da economia mundial e do capitalismo?

Zingales: Em relação à economia mundial, minha maior preocupação está ligada a uma possível desaceleração da China, que pode ter gigantes repercussões na Europa e depois, por meio da própria Europa, em todo o mundo. Esse é o maior perigo iminente. O capitalismo democrático está enfrentando um momento difícil, mas não abri mão da esperança. Temos que lutar, mas também reconhecer as limitações do sistema atual.

Veículo: Valor Econnômico

Seção: Brasil