Os desafios da indústria da moda para diminuir o impacto ambiental

A poluição ambiental e o esgotamento de recursos naturais são alguns dos problemas causados pela indústria têxtil e do vestuário, a segunda mais poluente – atrás apenas da do petróleo. Problemas relacionados ao bem-estar dos trabalhadores, especialmente por parte das gigantes do setor, também aparecem frequentemente na mídia e levantam questionamentos sobre a forma como esse mercado funciona e se desenvolve.

No entanto, apesar dos problemas causados pelo uso excessivo de recursos na produção e das condições pouco adequadas a quem trabalha nela, há formas de aumentar a sustentabilidade essa indústria e diminuir impactos. O desafio não é pequeno e o esforço para fazer alguma diferença deve ser conjunto, proveniente da cobrança dos consumidores e do interesse das empresas.

Consumidores são a chave da mudança por uma moda mais sustentável

Para se adequar a um novo perfil de consumidor, mais consciente de suas responsabilidades ambientais e mais engajado socialmente, empresas do setor têxtil e de confecção têm repensado suas práticas e readequado suas ações, adotando uma postura mais sustentável. Isso se reflete na escolha de fornecedores de tecidos e outros materiais fabricados, nas práticas sustentáveis de fabricação, no salário justo e no respeito aos funcionários, suas famílias e à comunidade.

Algumas mudanças são fundamentais em uma empresa da moda que deseja ampliar sua responsabilidade socioambiental:

- Utilização de tecidos com “selo verde” ou ecofriendly, como algodão orgânico e tecidos “desfibrados” (compostos por retalhos ou fibra de garrafa PET);

- Uso de corantes naturais para tingir os tecidos;

- Dar preferência a peças clássicas que sejam de qualidade, mais duráveis e atemporais e não se ater aos modismos passageiros do fast fashion.

O novo perfil do consumidor

O consumidor atento à importância de adotar hábitos mais sustentáveis deve conhecer as roupas e acessórios que utiliza, de onde vem a matéria-prima, se a empresa respeita os direitos dos trabalhadores. Para isso, basta uma olhada mais cuidadosa nas etiquetas ou uma busca na internet, ferramenta que também auxilia quem pretende encontrar produtores locais alinhados com os conceitos da moda sustentável.

Outra característica importante do novo consumidor é optar por roupas de cortes e cores mais básicas ou clássicas, que poderão ser usadas muitas vezes e preferir investir em uma peça de melhor qualidade, mesmo que custe mais caro, do que em várias peças de menor preço, mas que tendem a durar menos.

Dados da pesquisa ThredUp 2018 Resale Report apontam que, em 2018, o mercado de produtos de segunda mão cresceu 47% em relação ao ano anterior, enquanto as vendas no varejo cresceram somente 2% no mesmo período. No Brasil, segundo o Sebrae, o número de brechós cresceu 210% entre 2010 e 2015. Mesmo sem dados mais recentes, é possível verificar a grande oferta e procura por brechós nas redes sociais, que operam em lojas físicas ou e-commerces e atendem a consumidores de qualquer lugar do país.

Até pouco tempo, brechós eram sinônimos de roupas velhas e mal conservadas. Mas hoje é possível encontrar peças para todos os estilos – de roupas vintage a lançamentos da estação em diversos tamanhos – e bolsos. Há até lojas especializados em roupas e acessórios de grifes altíssimo padrão.

Para Rosani Alberti e Jéssica Leonel, proprietárias de um brechó em Palhoça (SC), o brechó é um espaço de democratização da moda e de inclusão social por meio do vestuário. Sua loja é ponto de encontro de mulheres que buscam se vestir bem e evitar o desperdício.

Para as proprietárias desse brechó em Palhoça, a moda deve ser um instrumento de identidade, inclusão e desenvolvimento social. — Foto: Foto Rosani Alberti/Divulgação]

Um sábado por mês, as proprietárias realizam um Clube de Trocas, que gera vales-compras para serem usados em produtos na própria loja. Os cuidados com a sustentabilidade se refletem no dia a dia do brechó, onde as proprietárias, que também são estilistas, cuidam de animais abandonados (dois deles já adotaram o espaço), comercializam cosméticos naturais e produtos para quem deseja se adaptar ao “lixo zero”, criam, customizam e reformam peças, e promovem encontros culturais e eventos beneficentes.

– A moda faz parte da construção das sociedades e da nossa história, sendo um item fundamental para sobrevivência na sociedade atual. Por isso, ela precisa ser inclusiva. É muito mais dificil conseguir um emprego quando se está “mal vestido”, por exemplo. Assim, acreditamos que se a moda não estiver ao alcance de todas as pessoas, ela não será justa. Por pensar desse modo, criamos um espaço de consumo consciente, que é brechó, loja colaborativa e atelier de costura, onde adaptamos nossos produtos às mais diversas necessidades. Unimos o amor pelo brechó com a arte de fazer roupas de forma artesanal, o que nos permite incluir sem padronizar – afirmam Rosani e Jéssica.

Veículo: G1

Seção: Sustentabilidade