Recessão acabou, mas impacto permanece

De 2013 até o ano passado, período que abrigou a mais grave recessão do país, de 2014 a 2016, grandes fabricantes de bens de consumo não investiram de forma eficaz, endividaram-se à espera de um crescimento que não veio, e viram a taxa de expansão da receita cair mais de 90%. E os efeitos desse quadro ainda são sentidos neste ano. 

A avaliação é da consultoria Roland Berger, que avaliou o desempenho operacional e financeiro de 40 grandes indústrias das categorias de alimentos, bebidas, higiene e cosméticos que operam no Brasil. Foram consideradas companhias com receita anual superior a R$ 1 bilhão, listadas no ranking da revista " Valor 1000". Juntas, registraram receita de R$ 442,6 bilhões em 2017, representando 65% da receita total do setor de bens de consumo.

O estudo mostrou que essas empresas perderam, de 2013 a 2017, R$ 7,1 bilhões em valor operacional - indicador que mostra se o capital foi usado de forma eficaz e se gerou valor, ou não. O valor operacional caiu 1,6% no ano passado, em relação a 2013. "O percentual parece pequeno, mas foi inesperado. A indústria de consumo costuma ser a última afetada em uma crise, quando é atingida. O estudo mostra que a recessão no Brasil atingiu a base de consumo das famílias brasileiras", diz Gerson Charchat, sócio de bens de consumo e varejo da Roland Berger. 

A categoria de alimentos foi a que mais perdeu, segundo o estudo. Foram R$ 29,4 bilhões no período de 2013 a 2017. As indústrias de higiene e cosméticos, por sua vez, tiveram uma perda de R$ 7,6 bilhões.

Apenas a categoria de bebidas apresentou ganho de valor operacional, com um aumento de R$ 29,9 bilhões. "Historicamente, o setor de bebidas tem uma operação muito eficiente, o que garante mais ganhos em valor", disse Charchat.

Entre as companhias que tiveram mais ganhos estão Ambev, Coca-Cola Femsa, 3 Corações, Coamo, O Boticário e Natura. As empresas que perderam valor e receita foram Marfrig, Vigor, Hypera, Brasil Kirin (adquirida em 2017 pela Heineken) e Procter & Gamble (P&G). 

Houve piora em outros indicadores avaliados pela Roland Berger. A alavancagem das empresas, medida pela relação entre dívidas e patrimônio líquido, aumentou 67% entre 2013 e 2017. "De modo geral, as empresas se endividaram mais em 2013 e 2014, esperando um crescimento do mercado que não veio. Com o mercado ainda retraído, fica mais difícil reduzir a alavancagem no curto prazo", afirmou Charchat. 

A remuneração ao capital próprio, medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido, caiu 45,5% no período. O retorno sobre os ativos (relação entre lucro operacional e ativo total) caiu 44,6%.

O ritmo de crescimento da receita do setor caiu 94,5%, passando de uma média de 17,2% para 0,9%. A rentabilidade da operação baixou 18,3%, saindo de uma margem de lucro operacional de 10,4% em 2013 para 8,5% em 2017. O retorno sobre o capital investido recuou 8,5% passando de uma taxa de 11,8% para 10,8%. As indústrias do setor também mantiveram uma capacidade ociosa alta nos cinco anos analisados, na faixa de 30%.

No segmento de bebidas, o uso da capacidade instalada saiu de 71,3% em 2013 para 72% em 2017. No segmento de alimentos, o uso passou de 80,3% para 72%. Em higiene e beleza, o índice baixou de 82,1% para 80,9%.

Em 2018, o quadro não melhorou, ao contrário. "Houve piora nos indicadores de uso da capacidade instalada neste ano em comparação ao fim de 2017, o que indica que não houve recuperação nas indústrias neste ano", diz Charchat. Em julho deste ano, o nível de uso da capacidade instalada era de 66,4% nas indústrias de bebidas, 74,6% em alimentos e 77% em higiene e beleza.

Charchat acrescenta que as empresas relatam neste ano dificuldades para recuperar o nível de desempenho anterior à recessão. "O setor de bens de consumo demora mais a se recuperar em relação a outras áreas. As pessoas se acostumam a consumir produtos mais baratos ou marcas mais populares. Quando melhoram a renda, não voltam imediatamente a consumir os produtos de antes", avalia. 

De acordo com o analista, os segmentos de bebidas e de higiene e beleza já mostraram recuperação do valor operacional gerado em 2017. Já o segmento de alimentos apresenta piora no índice de retorno sobre o capital investido desde 2015. 

O setor de bebidas, por sua vez, manteve os melhores índices de rentabilidade operacional e de retorno sobre o capital investido no período, mesmo tendo apresentado queda nos indicadores de crescimento da receita e de rentabilidade. Entre 2013 e 2017, a taxa de retorno sobre o capital investido de bebidas passou de 24,1% para 23,4%. Já a taxa do setor de alimentos passou de 7,1% para 6,4% no mesmo intervalo. A taxa da categoria de higiene e beleza passou de 9,2% para 9,6%.

Em relação ao crescimento de receita, a categoria de higiene e beleza foi a que apresentou melhor desempenho, saindo de uma queda de 6,6% em 2013 para um avanço de 16,6% em 2017. O setor de bebidas, que crescia 17,1% em 2013, apresentou alta de 4,7% no ano passado. O setor de alimentos passou de uma alta de 19,1% para uma queda de 0,5% nos cinco anos analisados.

Veículo: Valor Econômico

Seção: Empresas