Básicos ganham destaque na indústria da moda

Não importa o nome: neobásico, minimalismo ou básico. O certo é que o mantra do consumo consciente tem levado a indústria da moda a repensar suas estratégias. Mais do que isso, abriu espaço para novas marcas, que concebem suas coleções de forma atemporal, pensando em durabilidade, poucas peças, uma cartela de cores clássica e respeito ao meio ambiente.

Criada há cinco anos, a Básico.com é um dos exemplos desse movimento. Começou vendendo apenas pela internet, sem pontos físicos, com a proposta de oferecer uma camiseta clássica, porém confeccionada com algodão de alta qualidade. Na cartela de cores apenas três tons: branco, preto e marinho. A variação ficava por conta da modelagem, com mangas ou corpo mais ou menos compridos. "Quando começamos nesse nicho, pouco se falava em mudar a lógica de consumo", afirma Daniel Cunha, co-fundador e CEO da marca. "A camiseta branca, o ícone do básico tinha sumido da Hering, deixando um hiato no mercado". Um espaço que a Basico.com tratou de preencher rapidamente ao oferecer o que chamou de luxo acessível. 

Gradualmente a coleção foi ganhando novidades, porém sempre dentro da lógica de oferecer apenas o que é essencial no closet. A camisa branca bem cortada, a t-shirt com matéria prima de qualidade, o jeans de modelagem reta e lavagem clássica, um vestido preto, uma bermuda masculina limpa. Atualmente, a marca oferece 150 variações de peças, entre cores e tamanhos. A cartela de tons, ganhou três novas opções: telha, cinza e cru.

Não precisa mais do que isso, afirma o empresário, salientando que as camisetas nas cores preto e branco respondem por 70% das vendas. "Talvez o jeans seja o exemplo mais claro do nosso posicionamento", diz Cunha. "Temos três modelos femininos - clássico, boyfriend e regular -, em duas lavagens diferentes, no máximo". 

Disseminando o conceito de que o básico é atemporal e não vai se tornar descartável, a Basico.com cresceu. Trouxe para o mundo físico a experiência do comércio virtual. Suas três lojas não têm estoque, contam apenas com uma peça de cada cor e numeração nas araras. Também não têm caixa ou embalagem, são pontos de serviço. O faturamento passará dos R$ 10 milhões em 2018.

Na mesma linha, porém com foco no universo masculino, a Oriba, criada em 2014, pelos sócios Paulinho Moreira e Rodrigo Collis, passou dois anos vendendo exclusivamente pela internet. Em 2016 abriu a primeira loja física, na qual provava que era possível seguir pelo caminho do "menos é mais" com qualidade, requinte e sustentabilidade. Suas coleções são atemporais e compostas por peças consideradas básicas para o dia a dia do homem. Camisas, calças, t-shirts e bermudas podem combinar entre si e formar muitos looks diferentes com a mesma roupa.

Para a consultora de moda Dani Ferraz, não se trata de um movimento passageiro, pelo contrário. "As pessoas estão cada vez mais interessadas em ter um guarda-roupa inteligente, formado 70% por bons básicos, que podem ser usados de forma diferente", afirma. "Tem faltado isso nas grandes coleções". A consultora observa, porém, que as marcas que desejam investir no nicho não devem apostar em um único produto, mas sim numa boa gama de básicos, sem perder a essência. 

Formada em moda, Renata Negrão sempre teve uma ligação forte com os animais, a ponto de criar uma ONG para protegê-los. Quando resolveu tocar o próprio negócio, a Bleque, tinha a certeza que a marca de calçados seria um reflexo de seus princípios. "Trabalho apenas com matérias primas renováveis, que são reaproveitadas em 100% em toda a sua cadeia", diz. "Rastreamos todo o processo desde a criação dos peixes até a chegada do couro para confecção, ajudando na produção feita pelos índios e ribeirinhos." A coleção é enxuta, cerca de nove modelos, em seis diferentes cores resultantes do tingimento com corante natural, e no máximo 400 pares. O preço final de venda gira em torno de R$ 1 mil por par. O e-commerce responde por 67% das vendas, inclusive para o exterior.

Produzir poucos modelos, porém exclusivos, únicos e atemporais. Foi com esse objetivo que Leonardo Mazolli abriu em 2017, a Charlotte Look, marca de calçados com forte toque artesanal. "São apenas cinco referências em três cores: preto, café e whisky, que vêm acompanhados de acessórios removíveis, possibilitando novas versões", afirma o empresário, segunda geração da família na indústria calçadista de Franca. Os sapatos são vendidos apenas pela loja virtual, ao preço médio de R$ 370,00. Com produção de 300 pares por mês, a marca deve fechar este ano com um faturamento de R$ 1,6 milhão.

Veículo: Valor Econômico

Seção: Empresas