Parceria público-privada no Brasil vai mal, diz Arminio Fraga

A parceria entre o governo e o setor privado no Brasil não tem sido bem-sucedida, na opinião do ex-presidente do Banco Central (BC) Arminio Fraga. Na abertura do segundo dia do GovTech Brasil — evento em São Paulo que discute como inovação e tecnologia podem contribuir para a construção de governos eficientes —, o economista disse que o “ecossistema” brasileiro ainda favorece “predadores”, com a captura do Estado por grupos de interesses. 

“O contexto atual sugere que a parceria público-privada vai mal. Há um desequilíbrio. E, nesse campo, o terceiro setor tem estado à frente de iniciativas interessantes”, disse Fraga nesta manhã.

O economista observou que o país requer mudanças institucionais e culturais dependentes de um sistema político que produza bons governos, visando o bem comum e com visão de longo prazo. “Bons governos concentram sua atuação na construção de bens públicos. Daquilo que o mercado não produz”, destacou.

Segundo ele, no ambiente atual, com recrudescimento do populismo e do totalitarismo, é preciso passar para as pessoas a sensação de que elas têm oportunidades. Estimular o sentimento de que existe solidariedade e de que elas contam com uma rede de proteção.

“Esse é o nosso maior desafio. O mercado fez muitos avanços, mas está perdendo no campo da felicidade geral das pessoas”, disse o fundador da Gávea Investimentos.

O economista ressaltou que as transformações tecnológicas criaram nas pessoas o medo de serem substituídas por máquinas. Para ele, o caminho para trazer equilíbrio é trabalhar para que, no campo da educação, a inovação seja complementar e valorize pessoas.

“Precisamos de infraestrutura de qualidade, e isso vai além de boa conexão de internet. Estamos diante de uma urgente necessidade de grandes mudanças. E o maior problema da produtividade talvez esteja dentro do Estado. Mudanças institucionais devem facilitar mudanças culturais, que são mais difíceis de fazer.”

Para Arminio, a reforma do Estado deve englobar dois grandes campos. O primeiro, explicou, é gestão, pois não se avalia o que se faz e, por isso, não há melhoras. “Precisamos de métricas e metas”, diz. Em segundo lugar, é preciso haver mudança de atitude. “É necessário entender o cidadão como cliente do Estado. Chegou a hora de governar com impacto.” 

Ele disse, porém, que será difícil as eleições produzirem alguém com mandato pleno para fazer todas as reformas de que o país precisa. “Nem é razoável esperar isso, é demais, dado o nosso ponto de partida. Mas, se houver algum avanço, quem sabe a situação não se equilibre?"

Para Arminio, o maior problema é não tomar decisões difíceis, principalmente fazer o ajuste fiscal, o que pode acarretar sacrifícios maiores. “Muitas vezes, a gente ouve ‘vamos fazer o ajuste fiscal ou ser felizes?’. Não tem isso no cardápio. O que está no cardápio é fazer o ajuste e não mergulhar numa crise mais profunda.” 

De acordo com ele, as reformas de que o Brasil necessita dependerão da qualidade do debate político nos próximos 60 dias, período que precederá a sucessão presidencial, diz o economista. “Se alguém se eleger em cima de uma plataforma realista, que encare os problemas do país, as chances de algo acontecer no campo das reformas aumentarão imensamente. Não só em tecnologia, mas nas áreas básicas: educação, saúde, meio ambiente, segurança”, disse.

Segundo Arminio, “em um passado não muito distante”, o Brasil seguiu na direção oposta. “A partir de um discurso populista, tomamos um caminho de péssimas políticas públicas e deu no que deu. O país está quebrado, com desemprego alto, um sofrimento enorme, quando deveríamos estar crescendo”, observou.

O ex-presidente do BC disse que somente será possível ter uma visão melhor das opções entre os candidatos daqui a um mês, quando eles estiverem se posicionando melhor sobre os assuntos. “Se não conseguirem apresentar propostas concretas a partir de diagnósticos rigorosos, minha impressão é a de que vamos ficar sofrendo. Mas está um pouco cedo e não quero prejulgar ninguém. As pessoas podem ter uma história de adesão a ideias ou modelos equivocados — e temos muito dos dois no Brasil —, mas de repente mudam. Vamos ver”, ponderou. 

Aminio não quis arriscar palpite sobre as propostas apresentadas pelos candidatos até agora. “Tenho minhas impressões, mas não quero entrar nesse jogo de avaliar as pessoas, seria prepotente de minha parte. Vamos deixar eles discutirem. Essa série de debates foi útil, mas me frustrou, as posições foram intangíveis. Fiquei com a sensação de que os assuntos mais importantes não foram abordados, e não houve insistência para isso também.”

Veículo: Valor Econômico

Seção: Brasil