Legislação obriga mais investimento em reciclagem

O surgimento de novas legislações ambientais tem induzido ações empresariais voltadas à redução de impactos negativos, para evitar o risco de cobranças na justiça e prejuízos no mercado. "A pressão é cada vez maior", admite Victor Bicca, presidente do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), para quem nesta década "é nítido o maior engajamento do setor produtivo na questão, inclusive com o olhar nas oportunidades de negócio".

A lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010, obriga a logística reversa das embalagens, ou seja, o retorno às indústrias após o consumo dos produtos, sem irem para lixões ou aterros. Em 2015, uma coalizão de empresas da indústria e comércio formalizou acordo junto ao governo federal para a implantação do sistema, baseado principalmente em investimentos para melhoria da produção das cooperativas de catadores. O objetivo foi aumentar a reciclagem em 19,8% até 2017, índice de crescimento que acabou alcançando 29%, conforme relatório entregue ao Ministério do Meio Ambiente. 

Para Bicca, é necessário fazer com que os compromissos empresariais se tornem viáveis, desafio que exige, por exemplo, mudanças tributárias e um plano de apoio à estruturação do parque reciclador: "Não adianta recolher embalagens se não tenho o que fazer com elas". Além disso, completa o executivo, "ainda há uma grande  distância entre a consciência do consumidor e a prática da separação dos recicláveis nas residências".  

A adaptação à lei e às exigências de mercado, segundo ele, significa fazer não apenas ações superficiais, mas mudar modelos de negócio. Em alguns casos, a gestão de resíduos é requisito para a viabilidade de novos investimentos, pois o cerco se fecha para quem faz errado. Em São Paulo, por exemplo, a logística reversa é condicionante do licenciamento ambiental. 

Em paralelo, campanhas internacionais, como a que neste ano mobilizou ações contra a presença dos resíduos plásticos nos oceanos, forçam empresas a estipular metas para redução do problema. 

A Coca-Cola, por exemplo, divulgou o objetivo de até 2030 destinar adequadamente todas as embalagens, aumentando o uso das retornáveis e o percentual de material reciclado nas garrafas, além do apoio à coleta seletiva e às cooperativas de catadores. Na Ambev, 33% das embalagens PET já são feitas com o plástico descartado após o consumo das bebidas. Assim, em seis anos, a cervejaria evitou o uso de 94 mil toneladas de material virgem. 

"Consumidores do mundo todo estão mais críticos e a tendência das novas gerações é consumir conforme seus valores", aponta Ricardo Rodriguez, presidente da SIG, multinacional de embalagens longa-vida que criou uma estratégia de impacto positivo em que a gestão de resíduos pós-consumo se destaca. No Brasil, a companhia lançou em maio um edital para desenvolver programas de coleta seletiva em cidades de até 50 mil habitantes, em parceria com a empresa Recicleiros, que fornece apoio técnico ao plano municipal, à capacitação das centrais de reciclagem e ao monitoramento da produção.

Veículo: Valor Econômico

Seção: Empresas