Inflação sobe nos EUA e indica economia aquecida

Veículo: Valor Economico 

Seção: Internacional 

Uma medida bastante acompanhada dos preços ao consumidor nos EUA ofereceu ontem uma nova evidência de que o longo período de inflação muito baixa está chegando ao fim, elevando a possibilidade de que o Federal Reserve (Fed) acelere o ritmo das altas das taxas de juros de curto prazo. 

O núcleo do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), uma medida do que as famílias pagam por tudo, com exceção do combustível e dos alimentos, apresentou alta sazonalmente ajustada de 0,349% em janeiro, em relação ao mês anterior - o maior aumento em um único mês desde março de 2005 - puxado por uma alta generalizada nos custos dos alugueis, vestuário e serviços médicos.

"As empresas estão testando seu poder de definir os preços", afirmou Sarah House, economista da corretora Wells Fargo Securities. Para ela, isso é "um bom sinal" de que as empresas estão confiantes o suficiente para repassar os custos mais altos para os clientes.

Embora isso sinalize uma economia em fortalecimento, as pressões sobre os preços estão deixando os investidores nervosos. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, que são sensíveis à inflação, estão subindo. As ações - cujos valores tendem a cair quando o custo dos empréstimos aumenta - interromperam uma sequência de alta e entraram numa nova fase de volatilidade.

O IPC, que mede o que os americanos pagam por tudo, de temperos para saladas às tarifas do transporte público, aumentou 0,5% em janeiro, segundo divulgou ontem o Departamento do Trabalho americano.

No acumulado em 12 meses até janeiro, a alta geral dos preços foi de 2,1%, superando as estimativas dos economistas, que apontavam para uma alta de 1,9%. Um salto nos preços da gasolina em janeiro ajudou a dar força à inflação. Quando desconsiderados os preços voláteis da energia e dos alimentos, o índice mostra um aumento de 1,8% no ano. 

Analistas alertaram ontem que uns poucos componentes do relatório do IPC poderão se mostrar aberrações. Os preços do vestuário reverteram três meses de queda em janeiro, subindo 1,7%, a maior alta mensal desde fevereiro de 1990. A categoria experimentou deflação em grandes partes das duas últimas décadas, graças a uma enxurrada de importações baratas, e poucos analistas a veem como uma nova fonte de inflação no momento. 

Em outra possível aberração, o custo dos seguros de automóveis aumentou 1,3%, a maior alta mensal desde novembro de 2001.

Mesmo assim, a tendência geral da inflação dá sinais de fortalecimento, uma vez que a taxa de desemprego nos EUA está em queda e a economia mundial se mostra aquecida, pressionando os custos da mão-de-obra e dos produtos comercializados internacionalmente. 

As quedas nos preços de um punhado de itens, no segundo trimestre do ano passado, como os planos de telefonia móvel, levaram a uma sequência de leituras brandas da inflação. Autoridades do Fed disseram na ocasião que isso se mostraria transitório, levando em algum momento a uma reação da inflação. A leitura de dados recentes sugere que isso finalmente está acontecendo e que poderá se intensificar nos próximos meses.

A meta anual de inflação do Fed é de 2%, nível que suas autoridades monetárias dos EUA veem como consistente com uma economia saudável e que não querem que suba muito. A inflação está se aproximando da meta anual de 2%, embora oficialmente ainda não esteja lá.

A meta de 2% é baseada na medida de preços preferida das autoridades do Fed, que é o índice de preços de gastos pessoais de consumo do Departamento do Comércio. O chamado índice de preços PCE subiu 1,7% em dezembro, em relação ao mesmo período do ano anterior, e o núcleo do PCE, que não inclui alimentos e energia, subiu 1,5% no ano. Os dados de janeiro devem ser anunciados em 1º de março. 

A próxima reunião de política monetária do Fed será em 20 e 21 de março. Em dezembro, as autoridades apontaram para três aumentos das taxas de juros neste ano. No momento, os investidores veem 83,1% de chances de as autoridades aumentarem em março os juros em um quarto de ponto percentual, segundo os contratos futuros dos Fed-funds monitorados pelo CME Group. 

Nos últimos anos, o Fed e os mercados financeiros ocasionalmente discordaram quanto ao grau e a rapidez com que os bancos centrais iriam subir as taxas de juros. O Fed começou em 2016, esperando subir as taxas quatro vezes em incrementos de um quarto de ponto porcentual, mas somente se movimentou uma vez naquele ano, em dezembro, em razão de temores recorrentes com o crescimento, a inflação fraca, o nível de emprego e as turbulências nos mercados internacionais. Ele subiu os juros três vezes em 2017. 

As turbulências recentes no mercado financeiro, desencadeadas por um relatório separado do Departamento de Trabalho deste mês, que sinalizava para a alta dos salários nos EUA, refletem em parte os temores no mercado de que a alta da inflação leve o Fed a aumentar o custo dos empréstimos mais que as três vezes já esperadas neste ano. 

A leitura mais alta que a prevista do Índice de Preços ao Consumidor "não constitui um desastre inflacionário, mas claramente é uma ameaça aos mercados que ainda não computaram totalmente nos preços as três altas esperadas para as taxas de juros", disse Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, em uma nota a clientes. 

Num sinal contrariando uma economia superaquecida, os gastos dos varejistas americanos caíram em janeiro. As vendas no varejo e no setor de serviços alimentares - uma medida dos gastos do consumidor americano no comércio, restaurantes e em sites da internet - caíram em janeiro 0,3% (sazonalmente ajustado) em relação ao mês anterior, informou ontem o Departamento do Comércio. Isso sinalizou um começo de ano fraco para os consumidores, apesar da baixa taxa de desemprego e do aumento dos salários.