Investimento, motor do desenvolvimento

Veículo: Valor Economico 

Seção: Opinião 

Entre 2003 e 2013, o volume de investimentos na economia brasileira subiu expressivamente, saindo de 16,4% do PIB para 21,5%. Esse avanço, que adicionou 5 pontos percentuais do PIB à formação bruta de capital fixo, foi o esteio de um decênio de crescimento da economia à média de 3,8% ao ano, não obstante a grande crise financeira mundial de 2008.

Todo esse avanço foi revertido em apenas três anos e meio, entre meados de 2014 e 2017. O investimento despencou 30% e sua participação no PIB encolheu de 20,0% para 16,0%.

A condução da economia depois de 2015 também foi demasiadamente agressiva, além de se dar num ambiente de crise política. Juros altos, depreciação cambial, inflação corretiva dos preços administrados e corte dos gastos públicos redundaram em severa recessão. A crescente ociosidade no setor produtivo, o aumento da alavancagem das empresas e a concomitante regressão do crédito induziram a derrocada do investimento.

No 3º trimestre de 2017, porém, houve uma tímida reação dos investimentos industriais, de 1,6% sobre o período anterior. O faturamento do setor de máquinas e equipamentos subiu, puxado pela firme demanda da área agrícola e pela reposição ou substituição por máquinas mais avançadas depois de três anos de depreciação do estoque de capital. Já a construção civil, que representa mais da metade da formação de capital, persiste retraída. 

A expectativa para 2018 é que o investimento cresça moderadamente, ao redor de 3,5%. A venda de máquinas e equipamentos cresceria numa faixa entre 5% e 10% e a construção continuaria estagnada. Os analistas esperam uma retomada muito gradual do investimento nos próximos anos.

O relatório "Perspectivas do Investimento do BNDES", de outubro passado, corrobora a expectativa de crescimento modesto dos investimentos industriais no quadriênio 2017-2020. Sobre uma base que foi reduzida à metade do pico observado em 2013, a expansão será heterogênea. Em alguns setores, na margem, os investimentos crescerão entre 20% e 5% (por exemplo: petróleo e gás, eletrônicos, química, alimentos). Em outros, com grandes expansões recém-concluídas ou com dívidas elevadas (setores automotivo, de celulose, cimento, sucroalcooleiro), os investimentos devem permanecer contidos. 

O mais alarmante no citado relatório é a fraca perspectiva detectada para as infraestruturas. Os investimentos no quadriênio 2017-2020 estarão muito aquém dos níveis observados no triênio 2012-2014, nas áreas de energia, com queda prevista de 35%; telecomunicações, -28%; rodovias, -49%; ferrovias, -32%. Em 2017, o investimento público total caiu abaixo de 2% do PIB, valor mínimo da série estatística disponível.

Sem retomada pujante e sustentada dos investimentos em infraestrutura, elevando o baixo nível atual para perto de 6% do PIB a cada ano, será impossível alcançar um ritmo médio de crescimento anual satisfatório para o Brasil, de 4,5% a 5,0%. Tampouco será possível modernizar a economia, acompanhar a 4ª Revolução Industrial e obter ganhos sistêmicos de produtividade. 

Tais objetivos exigirão agregar, em movimento ascendente, de R$ 300 bilhões a R$ 350 bilhões ao ano em novos investimentos em infraestrutura, muito além dos magros R$ 105 bilhões previstos para 2018. Para garantir crescimento sustentado a participação de investimento total sobre o PIB deveria chegar a 23%, contando com as inversões na indústria, serviços e agronegócios. 

Cabe advertir que não se trata simplesmente de matéria de "vontade" ou de "decisão política". O fato é que as capacitações institucionais públicas estão ou foram debilitadas. Não há competência suficiente e confiável para planejar, preparar a engenharia dos projetos, avaliar e regular, efetuar o correto licenciamento ambiental em prazos razoáveis, estruturar garantias para os riscos pre-completion. Também não há equacionamento satisfatório do financiamento de longo prazo a custos compatíveis. Sem essas condições, fica limitada a ampliação das concessões e PPPs. 

A criação no âmbito da Presidência da República da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) teve a boa intenção de aumentar a coordenação interministerial e entre as agências públicas. Mas a sua carteira de projetos é raquítica frente às necessidades do país. Segundo declaração recente do ministro do Planejamento, o PPI reúne 89 projetos, totalizando R$ 103 bilhões.

Para quadruplicar com eficiência o investimento em infraestrutura, precisaríamos ter, permanentemente, uma carteira de R$ 800 bilhões a R$ 900 bilhões - patamar mínimo necessário para podermos selecionar projetos de alto benefício-custo, com engenharia executiva madura. Vale lembrar a urgência em resolver o imbróglio das leniências em relação às nossas empresas de construção. 

Isto requer o desenvolvimento de projetos no estado-da-arte em termos de sistemas digitais integrados à internet-das-coisas e capazes de capturar ganhos de produtividade derivados das técnicas de inteligência artificial. Há, portanto, uma parcela crescente de intangíveis por dentro das infraestruturas do futuro. 

A construção dessas capacitações públicas e privadas demandará uma revolução da gestão do Estado do próximo governo. Requer saltos de eficiência e de qualidade em matéria de planejamento, preparação de projetos, regulação, inovação, gestão, licenciamentos, garantias e financiamento de longo-prazo. 

Em suma, ou bem se moderniza profundamente o Estado brasileiro, para investir firme e sustentadamente em infraestruturas, ou estaremos fadados à mediocridade dos voos de galinha.