Começar de novo

Veículo: Estadão  

Seção: Opnião 

A partir desta condenação do ex-presidente Lula em segunda instância, unânime e contundente, não há outra saída para as esquerdas do Brasil a não ser uma profunda reorganização.

Ainda que seja grande tema de debates sobre o que significa ser de esquerda depois da queda do Muro de Berlim (1989) e da reciclagem a que se submeteram os partidos socialistas e social-democratas em todo o mundo, não dá para prescindir de uma forte atuação política em defesa das bandeiras sociais.

O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra tem razão ao afirmar que o maior erro do PT quando assumiu o governo a partir de 2003 foi ter aceitado o jogo político tradicional no Brasil. Entende-se por isso o fato de que o PT no governo operou como qualquer partido patrimonialista. Vendeu-se ao diabo, como os adversários se venderam, e abriu mão das propostas que defendia.

No discurso de posse em seu segundo mandato, em 2007, o então presidente Lula comprometera-se a dar prioridade à reforma política para rejeitar o jogo viciado de antes. Também nisso não passou das palavras. A falta de avanço aí foi a principal razão pela qual seu governo e os do período Dilma perderam o foco a que se propuseram quando da criação do PT em 1980.

Do ponto de vista dos fundamentos da economia, não há políticas de direita, de centro ou de esquerda. Não há como caminhar em direção a nenhuma proposta neoliberal, desenvolvimentista ou social, sem equilíbrio das contas públicas, sem inflação sob controle e sem despesas externas financiadas com recursos próprios ou por dívidas compatíveis com as receitas em moedas estrangeiras.

Só a partir de garantida solidez nos fundamentos da economia é que se podem definir prioridades sobre o que fazer com os recursos disponíveis: garantir mais distribuição de renda ou dar prioridade aos investimentos da iniciativa privada.

Antes de reformular sua estratégia, o PT terá de tomar decisões imediatas. Uma delas é colocar ou não em prática decisão anterior do partido de afastar militantes condenados em segunda instância. Definir que plataformas defender e que candidatos apoiar nas eleições de outubro. Outra, renunciar a “invenções” na política econômica, como aconteceu com a “nova matriz macroeconômica” e com as pedaladas adotadas no governo Dilma. Além disso, deixar de acolher e acobertar o jogo corporativista contra o interesse público.

O discurso de que prossegue a execução do plano golpista das elites contra políticas populares não é coerente com a prática do PT de seguir fazendo alianças em âmbito federal e nos Estados com os mesmos que aponta como golpistas. Não tem sentido afirmar que a condenação de membros do PT faça parte de uma grande fraude eleitoral e, ao mesmo tempo, aplaudir a condenação de outros políticos, como Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e Paulo Maluf. E, muito menos, que o voto, e não a Justiça, seja a última instância de julgamento das ações praticadas pelos seus dirigentes.

Como se vê, o PT não conta com a atuação das massas a seu favor. Não aconteceu a mobilização da militância com que seus dirigentes imaginavam que contavam. Ou se reinventa a partir das propostas de origem ou o PT não terá condições de liderar um projeto de construção da sociedade.