Para Ibre, retomada pode mascarar necessidade de reformas

Veiculo: Valor Econômico.

Seção: Brasil.

Os índices de atividade econômica divulgados na última semana confirmam que a economia brasileira está em um processo cíclico de recuperação, mas nem todas as notícias são boas. Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), o cenário mais positivo no curto prazo pode tornar a sociedade e a classe política menos sensíveis à necessidade de empreender reformas estruturais, o que pode afetar as eleições presidenciais em 2018. 

Na edição de outubro do Boletim Macro, divulgada com exclusividade ao Valor, a equipe de conjuntura do Ibre manteve suas projeções para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) neste e no próximo ano em 0,8% e 2,5%. O instituto destaca, porém, que as perspectivas de médio prazo são "assustadoras" caso as reformas não sejam feitas, com destaque para a da Previdência. 

"Estamos a cada dia mais pessimistas", diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro. Na visão do Ibre, as alterações nas regras de aposentadoria ficaram apenas para 2019. "Sem uma reforma da Previdência e mudanças na regra de correção do salário mínimo, é difícil imaginar um cenário que não termine em crise", observam Silvia e os economistas Armando Castelar Pinheiro e Julio Mereb na seção de abertura do documento. 

Mantida a agenda de reformas, a economia pode decolar em 2019, avalia a pesquisadora, para quem uma expansão na ordem de 4% é factível daqui a dois anos, mas não em 2018. Segundo Silvia, seria necessário um aumento muito forte do investimento e do consumo das famílias para alcançar essa taxa de crescimento no próximo ano, o que não está nas perspectivas da equipe de conjuntura do Ibre. 

O volume de importações de bens de capital avançou 41% em setembro, observa a entidade, depois de alta de 8% em agosto, movimento considerado um bom indicativo para o desempenho da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e pesquisa) no terceiro trimestre. Por isso, o instituto prevê que os investimentos cresceram 0,4% de julho a setembro, mas ainda não vê o número positivo como o início de uma trajetória de recuperação consistente.

Além do comportamento ainda fraco da construção civil, o instituto aponta as eleições presidenciais de 2018 como outra fonte de incerteza que pode afetar a disposição dos empresários em investir. "Em especial, as incertezas eleitorais vão se refletir sobre as perspectivas de um equacionamento para o problema fiscal", afirmam os economistas do Ibre. 

Outra dúvida dos pesquisadores sobre 2018 é sobre a capacidade de a demanda das famílias continuar mostrando taxas de crescimento robustas, mesmo após o esgotamento do impulso proporcionado pelo saque de recursos de contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Também há fatores estruturais que explicam a reação do consumo privado, mas esse componente do PIB tende a perder fôlego no ano que vem, depois de crescer 0,9% em 2017, estima Silvia.