Mercado e economistas ajustam expectativa para Selic abaixo de 7%

Veiculo: Valor Econômico.

Seção: Finanças.

A aposta de que a Selic vai recuar a níveis inferiores a 7% e permanecer baixa por um período prolongado ganha força no mercado financeiro e já provoca uma onda de revisões de expectativas por parte de economistas. Sinal dessa nova leitura é que as taxas de juros futuros caíram ontem em todos os vencimentos, mas a intensidade foi ainda maior nos prazos mais longos, indicando a redução da percepção de risco. 

O mercado trabalha com quase 100% de chance de corte de 0,75 ponto em outubro e indica uma Selic entre 6,75% e 7% ao ano no começo do ano que vem. Mas ainda carrega um prêmio de risco elevado quando se olha para o fim de 2018, condizente com uma alta de quase 1 ponto percentual da taxa. Com o tempo, diante de um cenário mais favorável com possíveis surpresas inflacionárias, o mercado pode ganhar confiança e reduzir o prêmio, diz Rafael Vasconcellos, gestor da Truxt. 

A expectativa de aperto tende a perder força também depois da leitura do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de ontem. Segundo profissionais, o documento sugere que um aumento da Selic tem chance de ocorrer apenas em 2019 e em intensidade menor do que se previa. "Essa era uma preocupação do mercado, de que um corte mais forte do juro em 2018 colocasse a inflação do ano seguinte em risco", afirma o economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks. 

O dilema não só foi minimizado como o Banco Central também sinalizou que o juro neutro é declinante, o que sanciona a visão do mercado, refletida na pesquisa Focus, de que a Selic pode ter uma elevação suave, para 8%. O BC vinha alertando para o risco ou de o juro neutro cair ou de a Selic subir. "O que o relatório mostra é que pode ser um pouco dos dois. O esforço para subir a Selic deve ser menor", explica. 

Para o sócio e gestor da Modal Asset Management, Luiz Eduardo Portella, os números apresentados no RTI podem levar o mercado a discutir se o BC deve mesmo desacelerar o ritmo de corte de juros na reunião de outubro. "Pelo modelo do BC, se a Selic cair 1 ponto, a inflação ainda fica abaixo de 4,5%", explica. "Tem chance de o BC mudar a cabeça."

O resultado do IPCA-15 de setembro, que desacelerou a 0,11%, abaixo do esperado pelos analistas ouvidos pelo Valor Data (de alta de 0,15%), corrobora a visão de inflação em queda, com chances de haver novas surpresas positivas à frente. 

O Bank of America Merrill Lynch (BofA) foi uma das instituições que revisaram para baixo a projeção para a Selic. Agora, estima que a taxa terminará o ciclo em 6,5%, ante 7% na leitura anterior. "A principal  mensagem é de que as taxas podem permanecer abaixo das neutras por mais tempo", diz o banco em nota.

Por outro lado, o fato de a atividade estar finalmente reagindo é um dos elementos que podem fazer o Banco Central parar de cortar os juros quando a Selic estiver em 7%, mesmo com grandes chances de haver novas surpresas de inflação para baixo. Quem faz o alerta é o economista-chefe do UBS Brasil, Tony Volpon. 

O ex-diretor do BC alterou seu cenário e agora trabalha com um juro de 7% no fim do ano, em vez de 7,25%. Mas, diferentemente de boa parte do mercado, ele não acredita que o BC deva "varar" esse ponto, sob o risco de ter de voltar a subir a taxa mais cedo, em pleno ano eleitoral, como já ocorreu na gestão de Henrique Meirelles e Alexandre Tombini. "Se parar em 7%, o juro pode ficar estável por muito tempo, provavelmente por um ano", diz. 

A queda abaixo de 7% também é vista com ceticismo por Marcos de Callis, estrategista da Votorantim Asset. "É possível, mas exige que uma conjuntura de fatores continue melhorando em relação ao que temos hoje, desde inflação até câmbio", diz. "Prefiro apostar que a taxa ficará perto de 7% ao longo de 2018 do que ficar concentrar expectativas na taxa final", diz. 

Para o economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, o Banco Central tem algum espaço para reduzir a Selic abaixo de 7% no fim do atual ciclo de corte de juros, contanto que o câmbio se mantenha bem ancorado em torno de R$ 3,10 ou se fortaleça mais. Ontem, o dólar comercial fechou em alta de 0,41%, a R$ 3,1428.