Para gestores, robôs não ameaçam empregos

Veículo: Valor 

Seção: Finanças 

Uma prestigiada consultoria de Boston fez um alerta ao mercado de gestão de fundos: nos próximos sete anos, mais de 90 mil empregos do setor vão ser eliminados pela ascensão da inteligência artificial. A Opimas, firma por trás da previsão, projeta que a administração de ativos vai ser mais afetada do que outros serviços financeiros, que em 2025 como um todo deverão ter 230 mil empregos a menos do que hoje. A firma de consultoria estima que cerca de 520 mil pessoas trabalham atualmente no setor de gestão no mundo. O executivo-chefe da Opimas, Octavio Marenzi, diz que a inteligência artificial vai provocar cortes de emprego tanto em áreas que não têm contato com os clientes quanto em funções operacionais e de serviços a clientes. "Alguns gestores de carteiras sentem que a IA [inteligência artificial] não tem como substituí-los no processo de decisão de investimentos. No entanto, já estamos vendo essa substituição ocorrer", diz Marenzi. "Isso é particularmente verdade com a mudança nas estratégias de investimento passivas, nas quais um número surpreendente de decisões de investimento ainda são tomadas por gestores de portfólio humanos. Essa é uma área pronta para ser automatizada pela IA." 

As empresas do setor de fundos, entretanto, refutam com veemência a ideia de que o uso crescente de técnicas de aprendizagem das máquinas, que ajudam os gestores de carteiras a detectar padrões em fluxos gigantescos de dados, possa vir a provocar um declínio drástico no quadro pessoal. Embora os algoritmos de aprendizagem das máquinas venham sendo usados há décadas por fundos hedge guiados por computador, a Baillie Gifford é uma das muitas grandes firmas de gestão de fundos que recorreu recentemente pela primeira vez à inteligência artificial para tentar elevar os retornos. O analista de investimentos Kyle McEnery, da escocesa Baillie Gifford, diz que seus colegas "tiveram uma longa conversa sobre a ameaça a empregos" quando o projeto estava em fase inicial. "O primeiro ponto positivo que eu levantaria é que qualquer coisa que automatizemos apenas vai significar que os investidores vão ter mais tempo para fazer tarefas muito mais valiosas e pensar novas ideias." 

A Baillie contratou um matemático para ajudar em seu projeto de inteligência artificial, que vem sendo comandado por quatro funcionários de suas equipes de tecnologia da informação e de investimento. A firma, cuja sede fica em Edimburgo, vai contratar mais especialistas se ficar "realmente óbvio" que os algoritmos melhoram o desempenho dos investimentos, acrescentou McEnery. 

Para um alto executivo de um grande fundo hedge, que falou sob condição de anonimato, os temores de que a adoção generalizada da inteligência artificial possa resultar em grandes cortes são equivocados. "Acho que a maioria das pessoas concorda que, se você estiver executando operações pequenas [de compra e venda de ativos], uma máquina seria melhor para fazer isso. Se você estiver tentando entender as perspectivas de uma empresa, falando com um novo executivo-chefe, qualquer um diria no momento que um humano é melhor para fazer isso", diz. "É uma questão de entender o que as máquinas fazem melhor. Há certos empregos que foram automatizados nos últimos dez anos. Mas não acho que todas as finanças venham a ser automatizadas. A inteligência artificial acaba com algumas tarefas, mas [também] cria tarefas diferentes."

A Deutsche Asset Management, segunda maior firma de investimentos da Alemanha, também começou a pesquisar como usar a inteligência artificial para melhorar as técnicas de vendas e atrair clientes. A gestora de ativos de 711 bilhões de euros trocou conjuntos de dados com muitas empresas de tecnologia especializadas em análises de inteligência artificial e vai decidir em breve com qual vai trabalhar. A firma de Frankfurt quer usar a inteligência artificial para criar "chatbots" (programas que simulam respostas de seres humanos em conversas) capazes responder perguntas simples dos clientes de varejo em seu site. Também quer automatizar a forma como analisa os informes sobre reuniões de seus milhares de funcionários de vendas para ter melhores indicações sobre mudanças generalizadas no sentimento dos clientes.

Além disso, a Deutsche Asset pretende esquadrinhar os dados públicos disponíveis sobre o desempenho dos investimentos dos clientes com gestores de fundos rivais. Isso, na teoria, poderia ajudá-la a julgar qual o melhor momento para contatar clientes sobre a possibilidade de transferir seu dinheiro para fundos de melhor desempenho. O chefe de distribuição na Europa e Ásia da Deutsche Asset, Thorsten Michalik, não acredita que o uso da aprendizagem das máquinas para dinamizar esses processos possa encolher o quadro de funcionários. "A partir das informações geradas pela inteligência artificial, esperamos poder aumentar o tamanho de nossos negócios, o que vai significar que vamos precisar contratar mais pessoas", diz. 

Outros gestores de recursos de destaque também entraram na onda. A State Street Global Exchange, divisão do banco de custódia e gestor de ativos State Street, testa uma ferramenta de aprendizagem de máquinas que almeja enviar alertas a grandes investidores quando surgem notícias que podem prejudicar suas carteiras de investimentos. Se uma mina de cobre explodir na América do Norte, por exemplo, a State Street Global Exchange poderia alertar os clientes com grandes participações na Apple a rever suas posições na empresa de tecnologia, já que a empresa depende do metal para produzir seus iPhones. A Nomura Asset Managment, do Japão, informou em junho que havia completado seu projeto para determinar se a inteligência artificial pode melhorar o processo de tomada de decisões de seus gestores de carteiras. O projeto, que foi elaborado pela firma de consultoria Nomura Research Institute, incluiu identificar sistematicamente, como positivos ou negativos, dados de blogs, notícias ou de redes como o Twitter, para seus gestores de fundos. 

Isso ajudou as equipes de investimento da Nomura Asset Management a se tornarem "mais eficientes" e liberarem mais tempo para investigar ideias de investimento mais interessantes, segundo um porta-voz do NRI. Aldous Birchall, especialista em inteligência artificial na divisão de consultoria da PwC, é mais cauteloso. Ele acredita que alguns papéis do gestor vão ser eliminados à medida que a inteligência artificial for adotada pelos gestores de fundos tradicionais. "Frequentemente me perguntam: O que é melhor, gestores de fundos humanos ou de inteligência artificial? A resposta é que a melhor equipe envolve humanos e inteligência artificial."