Ulrich Kuhn, liderança em defesa do setor têxtil

Veículo: Textili 

Seção: Notícias 

Belga de nascimento, brasileiro por opção, caboclo de coração e corintiano por convicção. É assim que o empresário e executivo Ulrich Kuhn resume, com humor, o seu currículo. A noite desta segunda-feira é histórica porque, após 33 anos, ele transfere a presidência do Sindicato das Indústrias de Vestuário, Fiação e Tecelagem de Blumenau, o Sintex, para José Altino Conper, presidente da Círculo SA. A razão da longa jornada no sindicato foi a atuação notável de Ulrich Kuhn na defesa do setor têxtil em Blumenau, Santa Catarina, no Brasil e exterior. 

O evento será às 19h, no Centro Empresarial de Blumenau.

Como foi sua vinda para Blumenau e o ingresso no setor têxtil?

Sou belga por acaso. Meu pai era alemão e veio para Blumenau. Conheceu minha mãe, descendente da família alemã Rischbieter.  Casaram e ele teve que voltar para ir para a guerra. Minha mãe estava em Berlim e foi transferida para uma zona neutra, a Bélgica, para ter o filho. Minha irmã nasceu em Berlim. No fim da guerra, voltamos para Blumenau. Meu pai foi trabalhar na indústria têxtil Artex. Eu estudei e, mais tarde, ingressei na mesma empresa, onde fui diretor e vice-presidente. Em 1986, o então presidente da Artex, Ingo Zadrozny me indicou para presidir o Sintex.

Naquele ano teve uma divisão familiar na Artex e eu ingressei na Cia. Hering como diretor de mercado nacional e comércio exterior. Por um motivo ou outro, como estava indo bem no Sintex, fiquei na presidência até agora.

O que projetou o senhor como porta voz do setor?

 

O Sintex, por sua atuação, deixou de ser uma entidade sindical pura e simples. Tem um poder de representação no Brasil muito forte. Isso exige articulação, dedicação. Apesar de ser da região de Blumenau, o sindicato, muitas vezes representa o Estado na Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Eventualmente, também representa o setor em Brasília e integra negociações internacionais. Sou membro da Delegação Brasileira Têxtil Negociadora de Acordos Internacionais desde 1983 e conselheiro da Associação de Comércio Exterior do Brasil desde 1989. Continuarei nessas funções, bem como na Fiesc e como presidente do conselho da Previsc. Também sigo como consultor empresarial.

A greve 1989 foi seu maior desafio no Sintex?

Foi o maior desafio. Eu era jovem e nossa região não tinha experiência nesse tipo de movimento. Apelidada de Greve do Século, ela começou em Blumenau e subiu para o Alto Vale. No pico, teve 100 mil pessoas paradas, de vários setores. Durou 17 dias. Foi um movimento orientado pelos líderes do ABC para reivindicar reajuste salarial. Não cedemos, pagamos uma parte do que o sindicato laboral pedia e a greve terminou.

O que motiva a liderança do setor na geração de empregos em SC este ano?

A partir da desvalorização do real, a importação ficou mais cara. Conseqüentemente, as indústrias e o varejo que tinham entrado num processo vertiginoso de importação passaram a produzir no Brasil. De pequenas quantidades o país chegou a importar mais de US$ 2 bilhões em vestuário por ano. SC foi altamente beneficiada com essa mudança. Agora, como o real começa a se fortalecer, corre risco de perder para o exterior.

A Texfair foi iniciativa arrojada do Sintex. Por que encerrou?

A Texfair, Feira Internacional de Produtos Têxteis, se encerrou em 2012 após 14 edições por uma questão logística. O público da feira tinha problemas com a falta de capacidade da hotelaria e logística para Blumenau. Isso desgastou. Para substituir, criamos as turnês de visitas. As empresas trazem os clientes para visitar e comprar. Estamos na oitava edição.

Como a indústria 4.0 impacta o setor?

Eu diria que o grande desafio daqui para frente não só para o setor têxtil, mas de modo geral, não é só a tecnologia da chamada industria 4.0 ou internet das coisas, mas a mudança da mentalidade do consumidor com as tecnologias e redes sociais. Na indústria, você vai ter menos trabalhadores, mais equipamentos autônomos, as pessoas estão migrando para outras atividades. Em Blumenau, as mulheres preferem trabalhar com tecnologia, no shopping, em serviços. Elas não querem mais ser operárias.