Ibovespa tem dia de correção de olho em reformas; dólar tem leve alta

Veículo: Valor Econômico
Seção: Finanças

O mercado de ações brasileiro tem uma terça­feira de correção de preços após a forte queda dos últimos dias, enquanto os investidores acompanham com toda atenção os esforços do governo para fazer avançar as reformas estruturais. As mudanças nas leis trabalhistas e no sistema de Previdência Social são vistos pelos investidores como essenciais para tirar o país da recessão e garantir o seu crescimentos sustentável no futuro. O Ibovespa subia 1,47%, para 62.581 pontos, às 13h04. O dólar comercial estava praticamente estável, vendido a R$ 3,2751. 

O setor de utilidade público tem a maior alta da bolsa entre sete grupos setoriais, com o índice da B3 (ex­BM&FBovespa) que reúne as ações do segmento avançando 2,16%. A Eletrobras disparava 5,73%, para R$ 13,11, em uma aposta de investidores mais arrojados em um desfecho favorável para a crise institucional vivida pelo país. 

A Cemig ganhava 4,65%, a R$ 7,43, depois de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovar uma redução média de 10,66% nas tarifas da subsidiária de distribuição da companhia. A base de apoio de Michel Temer (PMDB) está tentando mostrar que o Brasil não está paralisado enquanto o chefe do Executivo enfrenta investigações sobre corrupção.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM­RJ), afirmou ontem que pretende colocar a proposta de reforma da Previdência Social em votação, no plenário da casa, na primeira quinzena de junho. Adicionalmente, Ricardo Ferraço (PSDB­ES) manteve para hoje a leitura do seu relatório sobre as mudanças nas leis trabalhistas na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, um dos dois grupos em que o projeto está sob sua responsabilidade. 

A JBS novamente se destaca no lado das perdas na Bovespa. A ação do frigorífico caía 2,68%, para R$ 5,82, depois de a Fitch Ratings ontem à noite rebaixar a nota de crédito da companhia em um nível, para “BB”, e colocá­la em observação para um possível novo corte. A empresa segue no olho do furacão depois de a delação premiada dos seus executivos abrir um novo capítulo no drama vivido pelo Brasil. 

Dólar

O dólar tem pequena alta após recuar até R$ 3,25 no período matutino. O ambiente político segue alimentando a cautela entre os agentes financeiros e mantém o ceticismo com os esforços de aliados do governo para avançar com a agenda econômica. Profissionais de mercado apontam, entretanto, que a divisa americana busca se estabilizar em patamares consistentes com um cenário em que, a despeito dos riscos elevados, o avanços das reformas ainda é possível. Na avaliação do diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, os ativos domésticos têm sofrido de maneira aguda nos últimos dias diante da preocupação com atraso das reformas. “No entanto, o mercado ainda não foitotalmente ‘stopado’”, diz o profissional, ao indicar que nem todas as posições foram zeradas. “(O mercado) está severamente machucado, mas não houve a grande reversão”, acrescenta.

A solução para a crise política ainda divide opiniões. Boa parte do mercado acredita que a renúncia do presidente Michel Temer poderia ser uma saída rápida para o atual impasse político, abrindo caminho para retomada da agenda econômica. Por outro lado, há dúvidas sobre a capacidade de um possível sucessor em dar continuidade às iniciativas da atual gestão. Há quem defenda ainda que, com ou sem Temer, as reformas poderiam continuar. 

Nessa discussão, o economista­chefe do Deutsche Bank, Jose Carlos Faria, defende a primeira alternativa, de uma transição – através de eleições indiretas ­ para um novo governo favorável a reformas. Caso isso se concretize, o dólar poderia permanecer no intervalo de R$ 3,22 a R$ 3,35, ou até voltar a níveis inferiores a R$ 3,20. No entanto, a permanência de Temer na presidência por algum tempo ampara uma pressão de alta na moeda americana, até R$ 3,60. Enquanto a sustentabilidade do governo de Michel Temer é posta em debate no mercado, a base aliada do presidente busca colocar as iniciativas reformistas de volta na pauta. 

“O mercado pode ver com bons olhos o foco na agenda econômica, mas a expectativa pelo placar da reforma não parece ser tão positivo”, diz o operador Cleber Alessie Machado Neto, da H.Commcor. Ele aponta ainda que a instabilidade da moeda hoje indica que os agentes financeiros evitam excessos em qualquer direção, seja pela alta ou pela queda do dólar. "Ao mesmo tempo ­ não podemos esquecer ­, seguem as operações diárias, de empresas e fluxos rotineiros, a despeito da crise", acrescenta. Por volta das 13h30, o dólar comercial subia 0,24%, cotado a R$ 3,2828. Na mínima, a divisa chegou a R$ 3,2560.

O Banco Central atua para tentar favorecer o real. Hoje, a autoridade monetária concluiu seu miniprograma de oferta de liquidez ao injetar US$ 10 bilhões na forma de swap cambial tradicional desde quinta-­feira.

Juros

Os juros futuros operam em queda nesta terça-­feira. A iniciativa da base aliada do governo para retomar a agenda reformista é bem recebida por profissionais de mercado, amenizando ­ mesmo que marginalmente ­ a tensão com a crise política. No entanto, o esforço de parlamentares e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ainda é visto com ceticismo pelos agentes financeiros, que anseiam por avanço concreto das medidas antes de embutir qualquer melhora de cenário nos preços. O DI janeiro/2018 recuava a 9,675%, ante 9,745% no ajuste anterior, e o DI janeiro/2019 caía a 10,080%, ante 10,230% na mesma base de comparação. O DI janeiro/2021, por sua vez, tinha queda a 11,300%, ante 11,550% no ajuste anterior. (Denyse Godoy e Lucas Hirata | Valor)