IBC-Br surpreende e sugere 1o tri mais positivo

Veículo: Valor 

Seção:  Notícias 

Alta de 1,31% em fevereiro foi mais que dobro das estimativas e dado de janeiro foi revisado para +0,62%.

O desempenho mais forte do comércio e dos serviços neste início de ano levou à revisão do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). Em fevereiro, o indicador, que procura reproduzir o desempenho mensal do Produto Interno Bruto (PIB), subiu 1,3%, enquanto o dado de janeiro foi revisto de uma queda de 0,26% para uma alta de 0,62%. Com a surpresa positiva confirmada pelo IBC-Br, vários economistas melhoraram as estimativas para o PIB do primeiro trimestre. A GO Associados, por exemplo, passou a projetar uma alta de 0,9%, ante estimativa anterior de crescimento de 0,3%, enquanto o Santander revisou o dado trimestral de 0,3% para 0,6%.

O Itaú, que estima crescimento de 0,5% da economia no período, em relação ao quarto trimestre, também deve elevar o número. “A dúvida é para quanto”, diz o economista Artur Passos. A equipe do banco aguarda seminário que será organizado pelo IBGE hoje, no Rio, no qual o instituto deve apresentar as mudanças metodológicas nas pesquisas (ver matéria abaixo).

Na semana passada, o IBGE anunciou uma mudança significativa nos dados de janeiro do comércio e de serviços — de queda de 0,7% para alta de 5,5% e recuo de 2,2% para aumento de 0,2%, nessa ordem. O Banco Central incorporou essas informações ao IBC-Br e revisou o índice de janeiro de queda de 0,26% para alta de 0,62%. Em fevereiro, o indicador registrou crescimento de 1,3%, acima da média das projeções coletadas pelo Valor Data, de 0,6%. A assessoria de imprensa do BC afirmou que o efeito das revisões concentrou-se no primeiro mês do ano e que “dados preliminares do IBC-Br antecipavam desempenho positivo para o resultado de fevereiro”.

Para Passos, do Itaú, a reavaliação feita pelo IBGE aproximou os índices de janeiro dos modelos de projeção do banco e de outros indicadores coincidentes, como as vendas de veículos e nos supermercados. “Os sinais mais amplos são de melhora da atividade econômica. Temos sinais de recuperação, o que não é fruto só da revisão metodológica”, diz ele.

Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, também ressalta que, com as revisões, os dados divulgados pelo IBGE mostram um retrato mais condizente com outros indicadores, que sugerem estabilização da atividade econômica. “Aquele tombo da Pesquisa Mensal de Serviços [em janeiro, de 2,2%], enquanto a indústria mostrava comportamento um pouco melhor, inflação estava desacelerando, não combinava com os fundamentos”, diz.

A Tendências também colocou um viés positivo em sua estimativa de alta de 0,1% do PIB para o primeiro trimestre, mas ainda não mudou a projeção, porque não está claro como as mudanças metodológicas nas pesquisas mensais serão incorporadas às Contas Nacionais Trimestrais.

Para a GO Associados, que revisou a estimativa de PIB de 0,3% para 0,9%, a nova série da pesquisa de serviços está mais “colada” à realidade. Já no caso das vendas no varejo, em que a mudança foi mais brusca, diz o economista Luiz Castelli, o dado é mais “estranho”.

Para o Santander, “a magnitude da revisão das séries causou certo estranhamento, especialmente no que diz respeito aos dados do varejo. Ainda que já esperássemos crescimento da atividade econômica no primeiro trimestre, as mudanças sugerem uma elevação acima do apontado pela maioria das variáveis antecedentes e coincidentes”. O banco passou a projetar alta de 0,6% para o PIB no primeiro tri- mestre, mas manteve estimativa de crescimento de 0,7% no ano.

O comportamento de supermercados e de tecidos e vestuário, dentro do varejo, foi o que mais causou dúvida entre os economistas. Para Carlos Pedroso, do Banco de Tokyo, as variações expressivas de 8,1% e 12,8% para os dois grupos em janeiro, respectivamente, surpreenderam. O banco manteve estimativa de 0,4% para o PIB no primeiro trimestre, com viés de alta. “Mas preferimos aguardar os dados do mês de março”, afirmou.

Flavio Serrano, do banco Haitong, avalia que distorções sempre vão aparecer quando o IBGE decide revisar a base de cálculo, o que pode levar a uma leitura equivocada sobre o comportamento da atividade. Para ele, os dados mais fortes de serviços e varejo podem ter efeito sobre o cálculo do PIB, mas isso não muda a avaliação de que o país estaria testando o fundo do poço. “Assim, essa revisão cria a falsa ilusão de que agora a economia está recuperando, quando, na verdade, está se estabilizando”, diz o economista, que espera retomada modesta da atividade nos próximos meses, com intensificação a partir do segundo semestre do ano. A projeção do banco está em revisão, mas o Haitong esperava desempenho “ligeiramente acima de zero” no primeiro trimestre.

Já para Gustavo Arruda, do BNP Paribas, a revisão das séries aumentou a convicção de que a recessão ficou para trás. O banco manteve a estimativa de crescimento de 0,6% no trimestre.

Para o Itaú, apesar da surpresa com as revisões, a expectativa de crescimento no primeiro trimestre está muito mais calcada no forte desempenho do setor agropecuário e na indústria, com o carregamento estatístico positivo. Comércio e serviços, diz Passos, dão sinais de estabilização, com melhora da renda real em função da queda da inflação e sinais menos desanimadores no mercado de trabalho.

Sergio Vale, da MB Associados, ressalta que a recuperação do setor agropecuário, que deve puxar a atividade neste início de ano, não tem efeito isolado apenas sobre esse componente do PIB. Nos cálculos da consultoria, a cadeia de negócios do setor tem peso de quase 24% no PIB atualmente. “Crescer nas magnitudes que estamos vendo ocorrer leva a um efeito em cadeia de renda e consumo nas regiões em que o agronegócio tem peso, como já ocorreu em outros momentos no passado”. Para ele, a revisão do IBGE reforçou a expectativa de crescimento de 0,7% do PIB no trimestre e de 1% no ano.