BC deixa mais clara intenção de acelerar ritmo de corte da Selic

Veículo: Valor 

Seção: Finanças 

O Comitê de Política Monetária (Copom) deixou mais clara a intenção de acelerar o ritmo de corte da Selic para 1 ponto percentual na reunião de 12 de abril, cenário já embutido pelo mercado nas taxas futuras de juros. No Relatório de Inflação (RI) do primeiro trimestre, divulgado nesta quintafeira, o Banco Central (BC) afirma que, desde a reunião de fevereiro, “a consolidação do cenário de desinflação mais difundida, que abrange os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, fortalece a possibilidade de uma intensificação moderada do ritmo de flexibilização da política monetária, em relação ao ritmo imprimido nas duas últimas reuniões do Copom”. 

Em janeiro e fevereiro, o ritmo de corte da Selic foi de 0,75 ponto percentual por reunião. Desde que começou o atual ciclo de flexibilização, em outubro de 2016, os cortes já somam 2 pontos percentuais, com a Selic partindo de 14,25% ao ano. O Copom também colocou um novo condicionante para a determinação da extensão do ciclo de flexibilização monetária, que é o comportamento das projeções e expectativas de inflação para 2019. Seguem influenciando o tamanho do ciclo as estimativas da taxa de juros estrutural da economia brasileira. 

“O Copom entende que a extensão do ciclo de flexibilização monetária, inclusive as taxas vigentes ao longo de 2018, dependerá das projeções e expectativas de inflação para 2019, mas também das estimativas da taxa de juros estrutural da economia brasileira”, diz o documento. No relatório, as projeções consideram a trajetória da Selic de 9% em 2017 e 8,5% no fim de 2018 e inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechando 2017 em 4%, subindo para 4,5% em 2018 e marcando 4,6% nos 12 meses encerrados no primeiro trimestre de 2019, conforme o cenário de mercado.

Para o Copom, o processo de flexibilização da política monetária é compatível com a convergência da inflação à meta de 4,5% no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui os anos­calendário de 2017 e, com peso gradualmente crescente, de 2018. O colegiado avalia que a inflação apresenta dinâmica favorável, com processo de desinflação em curso se mostrando mais difundido e abrangendo, também, os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária. 

“Isso denota maior robustez do movimento ­ favorecido ainda pelo choque favorável nos preços de alimentos ­ e aumenta a confiança na sua continuidade”, diz o BC no Relatório de Inflação. A autoridade monetária elencou, porém, alguns componentes de risco. Entre eles, cita o alto grau de incerteza no cenário externo poderia dificultar o processo de desinflação. Outro é que o choque de oferta favorável nos preços de alimentos poderia produzir efeitos secundários e, portanto, contribuir para quedas adicionais das expectativas de inflação e da inflação em outros setores da economia. Um terceiro fator é que a recuperação da economia poderia ser mais (ou menos) demorada e gradual que o previsto. 

No caso do cenário externo, o BC aponta que ele ainda é bastante incerto, mas que, até o momento, a atividade econômica global mais forte e o consequente impacto positivo nos preços de commodities têm mitigado os efeitos, sobre a economia brasileira, de revisões de política econômica em algumas economias centrais, notadamente nos Estados Unidos. A autoridade monetária diz no Relatório de Inflação (RI) que há incerteza sobre a sustentabilidade do crescimento econômico global e sobre a manutenção dos níveis correntes de preços de commodities. 

“Nesse contexto, embora desde o último Relatório de Inflação a percepção em relação à atividade econômica global tenha melhorado, persistem riscos relevantes quanto ao ritmo de crescimento, à inflação, às taxas de juros e aos preços dos ativos globais”, conclui o BC. O BC também destaca a importância da aprovação e implementação das reformas, notadamente as de natureza fiscal, e de ajustes na economia brasileira para a sustentabilidade da desinflação e para a redução de sua taxa de juros estrutural. 

No que diz respeito ao Brasil, o Copom avalia que os indicadores de atividade econômica divulgados recentemente mostram alguns sinais divergentes, “mas compatíveis com estabilização da economia no curto prazo”. O BC também aponta que o nível de ociosidade permanece elevado, refletido nos baixos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa de desemprego. 

Nesse contexto, a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do próprio BC saiu de 0,8% para 0,5% em 2017.