Reforma da Previdência divide população

Veículo: Valor 

Seção: Politica 

A população está dividida em relação à reforma da Previdência Social, quer mais cortes de gastos na máquina pública e, descrente do quadro político atual, espera o surgimento de novas lideranças. Essas são algumas das conclusões de uma pesquisa popular encomendada pelo PMDB, à qual o Valor teve acesso em primeira mão. Realizada por telefone entre 20 e 26 de janeiro, com 1.038 entrevistados, a sondagem mostrou que 44,3% são contrários às mudanças nas regras da aposentadoria e, igualmente, 44,3% são a favor. A proposta de reforma, encaminhada pelo governo ao Congresso Nacional em dezembro e cuja aprovação é considerada prioridade neste primeiro semestre legislativo, encontra mais apoio entre os mais jovens e escolarizados ­ por consequência, os que estão mais próximos da aposentadoria temem mais pelas alterações propostas. 

Entre os que têm mais de 60 anos, 53,6% são contra. Já entre os mais jovens, há clara aceitação: de 16 a 24 anos, 57% são favoráveis à reforma. O Nordeste é a região mais contrária (55,1%) e o Sudeste, o mais favorável, com 55,2%. O alcance das novas regras para aposentadoria também divide a população: 48% acham que só devem valer para quem ainda não começou a trabalhar. Já o estabelecimento de idade mínima tem maior consentimento: 61,2% concordam. Mais uma vez, os mais jovens (72%) são os que mais concordam com a mudança e o estabelecimento de idade mínima. O percentual vai caindo conforme aumenta a idade do entrevistado. No entanto, o discurso do governo encontra uma dificuldade, pois 85,2% acham que, antes de mexer nas regras da Previdência, o governo precisa cortar mais de seus próprios gastos. Ou seja, o governo precisa trabalhar no convencimento da população de que é preciso priorizar as mudanças nas regras para aposentadoria ou continuará enfrentando a crítica de que ainda não fez sua parte antes de cortar benefícios. 

Neste ponto, aliás, o teste de argumento (em que o entrevistado escolhe entre uma resposta ou outra), mostra um amplo apoio a medidas de ajuste: 66,4% concordam que ainda há espaço para cortes de gastos e apenas 27,4% preferem a resposta de que já é hora de focar em medidas de estímulo à economia para o país voltar a crescer. De acordo com a pesquisa, cujo levantamento foi feito pela Datamétrica e a análise e balizamento de dados é do cientista político Rodolfo V. de M. da Costa Pinto, o brasileiro está pessimista. Somam 78% os que avaliam que no último ano o Brasil está "cada vez pior". Esse sentimento é especialmente agudo entre pessoas com nível educacional até o ensino fundamental e habitantes da região Nordeste. Para os próximos anos, percebe­se bastante ceticismo: 38% acreditam que a situação do país vai piorar, mesmo percentual dos que acham que irá melhorar. Outros 15% creem que a situação ficará igual. Os mais pessimistas estão na faixa entre 45 e 59 anos ­ 81,2% acham que está cada vez pior, percentual que vai a 83,5% no Nordeste. 

A corrupção (29%) é o principal problema para os brasileiros, aponta a sondagem. Porém, uma análise cuidadosa dos números, salienta o pesquisador, revela diferenças sutis de opinião: "Mulheres e habitantes das regiões Norte e Centro­Oeste veem a saúde como principal lacuna. Corrupção é um problema maior para os homens e residentes no Sudeste. Desemprego é o foco de preocupação no Nordeste e a violência no Norte", anota. A pesquisa tem uma série de questões voltadas especificamente ao Senado ­ o que não é por acaso, já que o PMDB é dominante na Casa, com 21 dos 81 senadores. A cada quatro cadeiras do Senado, uma pertence ao PMDB, cuja bancada é equivalente às de PSDB e PT somados. Somam 62% os entrevistados que se dizem pouco informados sobre o Senado. Entre os muito informados 61,2% fazem avaliação negativa das atividades da Casa. 

A população, no entanto, tem uma percepção bastante clara sobre quais deveriam ser as prioridades do Senado: saúde (67%), segurança e combate ao tráfico (52%), reforma da educação (45,3%) dominam as respostas. Temas caros ao governo, como ajuste fiscal (6,2%) e reforma da Previdência (9,2%) são menos lembrados. Na avaliação das instituições, o cenário é bastante desfavorável à classe política. Os partidos políticos têm o maior índice de avaliação negativa, com 67,9%, seguido pela Câmara dos Deputados, com 57,5%. A Presidência da República tem avaliação negativa de 50,1% dos entrevistados e o Senado, 44,2%. Com tamanha rejeição aos ocupantes dos Poderes eleitos pelo voto, é de se esperar que a população anseie por novidades. Por isso, 73,4% dos entrevistados creem que o Brasil precisa de novas lideranças políticas. Apenas 20,1% acham que o país precisa de lideranças experientes, capazes de fazer acordos para o Brasil avançar.