Nova era de dólar barato?

Veículo: Estadão 

Seção: Coluna do Fábio Alves

Depois de amargar no ano passado a maior perda anual frente ao real desde 2009, quando caiu 17,88%, encerrando a R$ 3,2521, o dólar segue se desvalorizando em 2017. Essa tendência já levou muita gente a perguntar se o dólar barato veio para ficar e se a moeda americana poderá cair para R$ 3,00 ou abaixo disso no curto prazo.

Desde o início do ano, uma série de fatores externos e internos contribuiu para a fraqueza do dólar frente ao real. Entre as razões internas, os analistas citam forte entrada de capital externo; otimismo com o avanço das reformas no Congresso, em particular a da Previdência; calmaria no ambiente político doméstico com o recesso legislativo e judiciário; e até a expectativa de atraso no desenrolar da Operação Lava Jato após a trágica morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki. Do lado externo, as declarações do presidente americano Donald Trump de que o dólar está “forte demais” fizeram a moeda americana perder fôlego.

Em janeiro, o dólar acumulou queda de 3,14% ante o real, encerrando o mês a R$ 3,1501, influenciado pela entrada de capital externo. Segundo o Banco Central, após registrar saídas líquidas de mais de US$ 1 bilhão em dezembro, o fluxo cambial do País tornou-se positivo, acumulando entrada líquida de US$ 2,85 bilhões até 27 de janeiro. E essa tendência continuou em fevereiro, fazendo o dólar perder terreno ante a moeda brasileira. Na segunda-feira, dia 6, o dólar chegou a recuar ao nível de R$ 3,10 antes de fechar a R$ 3,1242.

Mas o câmbio seguirá tão comportado assim no curto prazo? Muitos analistas e investidores acreditam que sim. A recuperação mais consistente da economia mundial está alimentando uma alta nos preços de commodities, como o petróleo e o cobre, o que favorece as moedas de países exportadores de matérias-primas, como Brasil, Austrália, Canadá e Nova Zelândia. E com a entrada de recursos provenientes da safra agrícola brasileira, a partir do segundo trimestre deste ano, o real poderá ganhar novo impulso.

Para muitos analistas, o patamar do câmbio reflete a avaliação atual dos fundamentos da economia brasileira. A estimativa de câmbio de médio prazo de um investidor, por exemplo, é de R$ 3,10 por dólar, levando-se em conta a paridade de compra e os termos de troca. Todavia, a mediana das estimativas dos analistas ouvidos na mais recente pesquisa Focus, do BC, aponta para um dólar a R$ 3,40 no fim deste ano.

Essa projeção mais alta para a cotação do dólar ao fim deste ano reflete maior cautela dos analistas em relação aos riscos internos e externos. Um deles ainda é a incerteza sobre o governo Trump: irá, de fato, o presidente americano impulsionar a maior economia mundial com estímulos fiscais ou esses incentivos ficarão em segundo plano, com ênfase para medidas protecionistas, as quais contribuem para um dólar mais fraco?

Outros riscos externos incluem o ritmo de elevação dos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed) em 2017 e o calendário político na Europa neste ano com o avanço de partidos de extrema direita ameaçando a zona do euro. Do lado interno, os desdobramentos da Lava Jato e a velocidade na aprovação das reformas econômicas no Congresso podem gerar volatilidade.

Se não houver nenhuma surpresa negativa ou choques externos e internos, não é possível descartar um dólar próximo de R$ 3,00. Nesse caso, os analistas acreditam que o BC aproveitaria para eliminar o estoque atual de swaps cambiais, o qual já chegou a US$ 108 bilhões e se encontra ao redor de US$ 26 bilhões.

Mas ninguém considera que a autoridade monetária tem pressa para isso. Até porque um dólar ao redor de R$ 3,10 auxilia o BC na tarefa de controlar a inflação. A projeção do IPCA na pesquisa Focus para 2017 é de uma alta de 4,64%. Se o dólar seguir bem comportado, aumenta a chance de a inflação ficar no centro da meta, de 4,5%, neste ano, abrindo espaço para novos cortes da taxa de juros.