Investidor aumenta aposta em queda forte e contínua da inflação

Veículo: Valor Econômico
Seção: Finanças

A aposta numa queda firme e contínua da inflação tem ganhado espaço no mercado de renda fixa e provocado uma movimentação importante nos negócios com títulos públicos. Operadores têm notado demanda por operações que permitem assumir posição vendida em inflação implícita. Na prática, isso reflete a percepção do mercado de que a inflação continuará desacelerando nos próximos meses e anos. Um profissional de uma gestora de investimentos chama a atenção que a inflação implícita está perto de 4,5% em alguns vencimentos. Como o mercado costuma operar com um prêmio de pelo menos 30 pontos­base sobre a inflação efetivamente prevista, essas taxas sugerem que os investidores já estariam considerando um IPCA de 4,2%. 

A pesquisa Focus divulgada ontem pelo BC mostrou que os analistas do mercado reduziram o IPCA estimado para este ano de 4,80% para 4,71%, aproximando­se do centro da meta (4,5%). Os analistas do grupo Top 5 de médio prazo, ouvidos na pesquisa, já veem a inflação abaixo do centro da meta neste ano, em 4,45%. A inflação implícita é extraída a partir das taxas das NTN­Bs, papel corrigido pelo IPCA. A operação mais usual é assumir uma posição comprada na inflação implícita por meio da compra de NTN­B e de um contrato de juros DI de prazo equivalente. Dessa forma, o aplicador trava um juro real mais alto, à espera de uma elevação da inflação implícita que reduza a taxa real no futuro. Esse movimento aumenta o carrego positivo da posição, elevando os rendimentos.

Mas desta vez a procura tem sido maior por uma posição vendida em inflação implícita. Para isso, os investidores têm tomado emprestadas NTN­B para lastrear operações compromissadas. Em vez de manterem em carteira, os agentes têm vendido o título no mercado secundário. Dessa forma, assumem posição prefixada na operação compromissada e ficam vendidos em inflação implícita. As duas operações juntas turbinam o carrego da posição. O empréstimo de NTN­B é uma operação considerada cara. E a demanda, apesar do custo, dá uma indicação do grau de confiança do mercado no retorno da posição vendida em inflação implícita.

"Há uma ideia de que o processo de desinflação vai continuar não só agora, mas também nos próximos anos, cumpridas as condições de ajuste fiscal", diz o gerente da mesa de títulos públicos da Renascença, Bruno Mota Gouvêa. Essa forte queda das projeções de inflação, seja nos modelos do Banco Central seja na pesquisa Focus ou no mercado de títulos, tem fortalecido o debate sobre a possibilidade de o Conselho Monetário Nacional (CMN) vir a reduzir a meta de inflação, hoje fixada em 4,5%. Em junho, o CMN irá confirmar a meta para 2018 e fixar o objetivo para 2019. O que alguns profissionais começam a discutir é se esse processo de desinflação em curso poderá abrir espaço para um corte, há muito almejado. Economistas argumentam que ter um objetivo mais ousado pode contribuir para o processo de controle de inflação de uma forma mais consistente, mas reconhecem que anos seguidos de descumprimento podem ser um entrave para essa decisão. 

"O mercado parece estar trabalhando com um cenário que permitirá a redução da meta de inflação", diz o profissional da gestora. Questionado na semana passada sobre o tema, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, limitou­se a dizer que o corte da meta é decisão conjunta dos integrantes do CMN. 

A queda do juro real seria outro indicativo desse "trade" ­ que se antecipa à inflação menor não só pelas condições da atividade ou renda, mas também pela percepção de que as condições para uma meta menor de IPCA estão dadas. O juro real medido pela diferença entre a taxa do swap de um ano e a expectativa para o IPCA em 12 meses está em 5,8%, o menor patamar em dois anos.