Corte dos juros foi mais conservador do que exige a realidade brasileira

Veículo: Folha de São Paulo
Seção: Colunistas

O Banco Central tomou coragem e surpreendeu o mercado, coisa que não fazia havia muitos anos.

Foi mais arrojado do que esperavam os economistas formadores de opinião do setor financeiro, mas muito mais conservador do que está a exigir a realidade da economia brasileira.

A redução de 0,75 ponto percentual na Selic ainda mantém a taxa básica brasileira no nível absurdo de 13% ao ano.

Para início de conversa, vamos deixar claro que o juro básico precisa, urgentemente, baixar mais. Até 10%, no caso brasileiro atual, qualquer barbeiro conduz a política monetária. A partir daí, exige-se perícia. Então, 10% já!

Não dá para ficar postergando medidas de combate à recessão nem na área monetária nem na fiscal. A realidade brasileira mostra um desastre econômico rondando sobre nossas cabeças feito moscas repulsivas.

O PIB deve ter caído 3,5% no ano passado –só vamos saber a taxa exata em março–, repetindo a performance negativa de 2015.

Os analistas mais otimistas, que há pouco tempo previam crescimento de 1,5% em 2017, agora reduziram suas estimativas para 1%. Os pessimistas esperam crescimento próximo de zero.

Sim, o Brasil tem um grave problema fiscal, gasta mais do que arrecada. A dívida pública bruta se aproxima de 80% do PIB e, se nada fosse feito, caminharia para 90% ou mais, um nível muito alto.

A criação de um teto para o crescimento dos gastos públicos, portanto, foi correta e bem-vinda. Mas não se pode esperar dessa medida poderes sobrenaturais –são apenas constitucionais, podem conter o aumento do endividamento público, mas não têm cacife para promover a volta do crescimento da economia.

Aliás, a contenção de gastos que se dará em consequência da criação do teto, infelizmente, tende a reduzir ainda mais o investimento público, fundamental para a retomada.

Durante o "milagre brasileiro" dos anos 1970, sob o regime militar, uma das críticas mais recorrentes dos economistas da oposição era que, apesar dos altos níveis de expansão do PIB, a renda criada não estava sendo distribuída de forma igualitária.

Para contestar esse argumento, os economistas governistas diziam que era preciso esperar o bolo crescer para depois distribuí-lo. Na verdade, as duas coisas poderiam ter sido feitas concomitantemente.

Vivemos um impasse semelhante. Há um foco quase único na contenção fiscal, esperando-se para adotar mais tarde, quando o ajuste estiver consolidado, providências para restaurar o crescimento.

Enquanto isso, o desemprego vai aumentando, já atinge mais de 12 milhões de pessoas e deve chegar a 14 milhões até o fim do ano.

Algumas medidas de estimulo à economia já foram anunciadas. São boas-novas, mas ainda tímidas e limitadas.

Existe uma coisa elementar nessa discussão: a principal forma de combater a recessão é destravar investimentos em infraestrutura e, grife-se, investimentos públicos.

Ah, mas o governo não tem dinheiro! Tem sim. Pode economizar dezenas de bilhões de reais com a queda dos juros e precisa ter coragem para cortar gastos correntes e privilegiar investimentos.

Também não faz sentido, por exemplo, bancos públicos ficarem sentados em cima de recursos que poderiam financiar obras de que o país tanto precisa para melhorar sua infraestrutura e, ao mesmo tempo, abrir milhares de empregos.

Exposto a essa enorme crise, o setor privado faz sua parte: tenta sobreviver.