Prévia do IPCA atinge menor alta no início do ano desde 94

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil

Os preços de alimentação ainda bastante comportados seguraram a inflação na primeira quinzena de janeiro, que também contou com a ajuda da menor alta dos serviços em pelo menos dez anos. Divulgado ontem pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo ­ 15 (IPCA­15) subiu 0,31% na abertura do ano, taxa mais baixa para o período desde 1994. Mesmo com a aceleração ante dezembro ­ quando a prévia do IPCA subiu 0,19% ­ a inflação acumulada em 12 meses seguiu em descompressão, ao recuar para 5,94%. Nessa medida, o IPCA­15 não ficava abaixo de 6% desde março de 2014. Para analistas, a trajetória mais tranquila de alimentos e serviços garante que a inflação continue perdendo fôlego, podendo ficar abaixo de 4% em meados do ano. Para o fechamento de 2017, a expectativa é de alta próxima do centro da meta, de 4,5%. 

Márcio Milan, da Tendências, afirma que a alta de 0,28% do segmento de alimentação e bebidas foi menor que o previsto, principal desvio em relação a sua projeção de aumento de 0,44% para o IPCA­15. Em igual mês de 2016, esses preços subiram 1,67%. Feijão e leite, que pressionaram a inflação no meio do ano passado, ainda estão em retração, observa, assim como alguns itens in natura. "Esperávamos reversão mais forte das deflações no começo do ano, mas a queda se manteve", diz Milan, movimento que relaciona ao cenário mais propício, sem quebras de safra e com clima melhor. 

Os alimentos contribuíram para manter a inflação comportada no primeiro mês do ano, concorda Cristiano Oliveira, do banco Fibra, mas o destaque da medição atual do IPCA­15, mais uma vez, foram os serviços. Em sua avaliação, o dado de janeiro mostrou uma desinflação "de qualidade". De dezembro para janeiro, a alta no conjunto que reúne preços como aluguel, cabeleireira e empregada doméstica recuou de 0,60% para 0,31%, menor inflação de serviços para primeiros meses do ano ao menos desde 2007, quando começa a série histórica calculada pela Tendências. Também houve descompressão no acumulado em 12 meses, de 6,61% para 6,35%.

"Durante muito tempo se questionou porque essa inflação não cedia, e a resposta apareceu nos últimos meses", diz Oliveira, para quem o comportamento mais benigno dos serviços é resultado do hiato do produto (diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial) em terreno bastante negativo. "O que está causando essa desinflação é o mercado de trabalho, principalmente via queda dos salários reais", afirma. 

Mesmo com a esperada recuperação da atividade em 2017 ­ em terreno mais otimista, o Fibra prevê alta de 1% do PIB este ano ­ a economia tem tanta capacidade ociosa que a reação não vai pressionar os preços, observa Oliveira, quadro que permite ao BC afrouxar a política monetária sem restrições. Para a próxima reunião do Copom, a expectativa é de novo corte de 0,75 ponto percentual na Selic, mas o economista não descarta redução maior, de um ponto. A inflação tem surpreendido para baixo há quatro meses seguidos, destaca a Rosenberg Associados, que atribui o cenário a uma conjunção de fatores. Em primeiro lugar, a consultoria cita a reversão do choque recente de alimentos, que inverteu a sazonalidade do grupo ­alta maior nos primeiros meses do ano.

Além disso, a contínua piora da atividade e do mercado de trabalho, de acordo com a consultoria, tem afetado os demais preços livres. O destaque nesse campo, diz a Rosenberg, é a perda de fôlego da inflação de serviços. Há, ainda, a desaceleração de preços administrados, que estão sendo ajudados pela deflação de energia elétrica devido ao regime de chuvas mais favorável, acrescenta a Rosenberg. A tarifa de eletricidade residencial caiu 2,25% na prévia deste mês. No fechamento de janeiro, os economistas esperam aceleração do IPCA para cerca de 0,50%, puxado por alta maior dos alimentos e, também, de reajustes de transporte público em algumas capitais. Mesmo assim, a inflação em 12 meses vai continuar diminuindo. Se confirmada a projeção de 0,57%, calcula Milan, da Tendências, o indicador em 12 meses vai recuar para 5,6% ao fim do mês.