Vem aí uma luta do século, entre a Casa Branca e o Quarto Poder

Veículo: Folha de São Paulo 

Seção: Colunista Roberto Dias

"A imprensa tem aprovação mais baixa do que a do Congresso. São a escória. São muito ilegítimos. São pessoas abomináveis."

O autor de tais frases tomará posse como presidente dos EUA. Ao fazê-lo, vai prometer defender a Constituição americana, da qual faz parte a famosa Primeira Emenda, sustentáculo histórico da imprensa livre.

Mas quem falou que promessa é dívida? Donald Trump é que não foi.

Pelo contrário, os últimos dias reforçaram a percepção de que vem pela frente uma luta do século entre a Casa Branca e o Quarto Poder. Só nesta reta final para a posse, Trump atacou a NBC e o Buzzfeed e bateu boca com um jornalista da CNN. A "escória" não se aquietou. Após obter recorde de assinaturas com a eleição, "The New York Times" anunciou investimento de US$ 5 milhões para reforçar a fiscalização ao governo.

Trump nunca foi querido da mídia, vale dizer. É capaz de o número de editoriais contra ele ter superado o de elogios oficiais dos norte-coreanos ao ditador Kim Jong-un.

Mas não vale imaginar que, em contraste, o governo ora encerrado tenha aceitado bem as críticas. Obama podia ser boa-praça para os fotógrafos, mas não para os repórteres investigativos. Pressionou jornalistas a revelarem suas fontes e usou a lei de espionagem como nunca antes.

Com Trump, o conflito deve ser mais ruidoso, pois vocalizado pelo presidente no Twitter, seu palco preferido (tem 20 milhões de seguidores, 6 milhões a menos do que Neymar).

Para os brasileiros que nos anos Lula se acostumaram com um presidente atacando a imprensa dia sim dia também, não chega a haver novidade aqui. Já para os que acreditam que o jornalismo é peça-chave do sistema de freios e contrapesos de qualquer democracia, eis uma excelente chance de fazer bom uso da legitimidade da imprensa. Não falta quem veja paralelo entre Trump e Richard Nixon —o único presidente dos EUA nocauteado pela tal "escória".