Para conselheiros, 'teto' e reforma da Previdência não são suficientes

Veículo: Valor Economico 

Seção: Brasil 

Empresários, banqueiros e economistas reunidos ontem na primeira reunião do novo Conselhão concordaram sobre o "caminho correto" assumido pela equipe econômica, mas alertaram que somente com mais reformas o Produto Interno Bruto (PIB) poderá retomar o crescimento em ritmo sustentável. A PEC 241, que estabelece um limite para o aumento das despesas públicas, e a reforma da Previdência foram citadas pelos principais conselheiros, sempre em tom elogioso. Houve, no entanto, reivindicações entusiasmadas pelo avanço da reforma trabalhista, que ainda não foi assumida de forma mais contundente pelo governo de Michel Temer. 

Integrante do conselho, o empresário Abilio Diniz disse que as enormes dificuldades enfrentadas pelo país não permitem que se tenha a ilusão de que haverá crescimento forte e redução do desemprego no ano que vem. Ele frisou que o Estado não tem condições de investir e que as empresas e as famílias estão endividadas. Ressaltou, no entanto, que também há coisas boas, como a inflação em trajetória de queda. Para o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, o consumo fraco e o desemprego elevado acabaram atrasando a retomada do crescimento econômico. O executivo lembrou que o PIB caiu cerca de 10% nos últimos anos, o que representou uma retração da renda média de 14%. 

"Chegamos ao fundo do poço e o momento é de retomada, transformando esperança em confiança para impulsionar o investimento", disse o presidente do Bradesco. Essa retomada, na sua avaliação, só começa a partir do segundo semestre de 2017. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também sinalizou que a ideia de "crescimento já" ficou para o ano que vem. De acordo com ele, os dados de novembro mostraram uma freada nas expectativas que se formavam até então. 

O empresário disse que o país tem um conjunto de desafios para a retomada do investimento, geração de empregos e crescimento, mas que as condições para resolver esses problemas estão sendo postas, com as reformas do teto de gasto e da Previdência. "Estamos em meio a uma tempestade, mas se vê céu aberto mais adiante", disse, complementando que há confiança de que o governo está na direção correta. Convidada para participar do colegiado apesar das críticas feitas ao governo, a economista­chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, foi ainda mais cautelosa. A economista afirmou que a lua­de­mel do mercado com a gestão Temer está indo embora. Para Latif existe a percepção de que os índices que apontam a confiança na economia já não apresentam mais o mesmo vigor.

"Estamos procurando de fato sinais de estabilização da economia", afirmou Latif, apontando ainda a necessidade de todos sentirem "o peso da responsabilidade com o país", sem que "interesses particulares" se sobreponham a questões nacionais. O presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, apontou que o Brasil precisa de ao menos três reformas para voltar a crescer de forma sustentável e acima dos 2% anuais. Para o banqueiro, o país caminhava para o colapso nos últimos anos da administração petista, mas essa trajetória que foi interrompida quando Temer assumiu a Presidência. 

Setubal elogiou a equipe econômica atual e apontou que além das reformas no campo fiscal são necessárias as reformas trabalhista e política, bem como uma mudança nas regras de intermediação financeira. Nesse campo, Setubal destacou a necessidade de maior flexibilização do direcionamento de recursos captados pelos bancos, que hoje é excessivamente engessado. Também com lugar no Conselhão, o publicitário Nizan Guanaes recomendou a Temer que tire proveito da baixa popularidade para tomar medidas amargas e impopulares e tirar o país da estagnação. "Ninguém faz coisas contundentes com alta popularidade", disse, após recomendar ao presidente assuma pessoalmente a comunicação das medidas. "O senhor deve puxar para si a responsabilidade da comunicação. Todos devem ser informados de que em 2024 o Brasil poderá virar um Rio de Janeiro", disse. 

Maria Luiza Trajano pediu que Temer se empenhasse em uma agenda de redução dos custos da economia por meio da diminuição da burocracia. Tal movimento, segundo a empresária, poderia compensar o fim dos subsídios. No governo Dilma Rousseff o setor varejista foi beneficiado por diversas reduções de IPI e outras desonerações. A presidente da Latam, Cláudia Sender, também apontou que a estrutura tributária brasileira está entre as mais complexas do mundo, gerando custos desproporcionais. Na sua apresentação, a executiva considerou que não há momento mais propício que o atual para que o Brasil inove com soluções criativas e que gerem "valor real". Para ela, a situação da economia é grave e a retomada do crescimento está atrelada à capacidade do país gerar competitividade e de se inserir nas grandes "ligas mundiais".

Um dos poucos que manifestaram divergência das linhas gerais dos conselheiros, o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros, Antonio Neto, defendeu a legislação trabalhista "de Getulio Vargas", que havia sido criticada momentos antes por Nizan Guanaes. Ele também demonstrou preocupação com o "açodamento" no encaminhamento da reforma da Previdência Social. "Não sou contra mudanças, mas precisamos ver o que queremos mudar." Logo após o evento, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, reafirmou o compromisso de Temer de encaminhar até o fim deste ano ao Congresso Nacional o texto da reforma previdenciária.