Trump e crise no Brasil geram dúvidas e oscilações no mercado financeiro

Veículo: Folha de São Paulo 

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A surpreendente eleição do republicano Donald Trump para a presidência dos EUA tornou mais nebuloso o cenário para os mercados no Brasil e no mundo em 2017.

Até então, a expectativa era de que a Bolsa continuasse avançando no Brasil, a depender do avanço das reformas propostas pelo presidente Michel Temer e do ritmo de redução da inflação e da taxa básica de juros da economia.

No câmbio, esperava-se a alta do dólar pela elevação gradual dos juros nos EUA, mas não uma disparada.

Agora, pelo menos até a posse de Trump, essas tendências deram lugar a várias incertezas. A primeira leitura dos investidores é que o republicano vai cortar impostos e aumentar os gastos públicos para aquecer a economia americana.

Se isso de fato ocorrer, a inflação deverá se acelerar nos Estados Unidos, e o Federal Reserve, o banco central dos EUA, precisará subir os juros em um ritmo mais acelerado do que o previsto até aqui.

"Há muita especulação sobre o que Trump vai de fato fazer, e é cedo para saber até que ponto o discurso dele vai se materializar", afirma Marcelo Varejão, analista da corretora Socopa.

A avaliação geral de especialistas é que o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira, deve registrar perdas no curto prazo. No entanto, as perspectivas para médio e longo prazos continuam positivas, sobretudo devido à esperada retomada da economia brasileira.

"Se a reforma da Previdência for aprovada nos próximos meses, o Ibovespa deve avançar", afirma Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos. Segundo ele, para este ano, o índice deve ficar em até 62 mil pontos. "Não tem motivos para subir mais."

Para 2017, analistas evitam fazer projeções para o índice, diante das incertezas.

CÂMBIO E JUROS

O câmbio deve continuar sendo influenciado pela possibilidade de elevação mais forte dos juros americanos. Entretanto, a atuação do Banco Central no mercado, com a venda futura de dólares, tem evitado uma apreciação maior da moeda americana.

Em relatório recente, Celson Plácido, analista da XP Investimentos, estimou que a moeda americana não deve voltar às cotações mínimas do ano. Segundo ele, o dólar deverá ficar entre R$ 3,20 e R$ 3,30 até o fim de 2016.

A recente desvalorização do real e o cenário externo incerto fizeram o mercado aumentar as apostas de uma queda mais lenta da taxa básica de juros, a Selic.

Antes da vitória de Trump, economistas ouvidos pelo BC para o Boletim Focus previam uma redução de 0,50 ponto percentual da Selic na última reunião do ano do Copom (Comitê de Política Monetária), para 13,50% ao ano. Agora, as estimativas são de um corte de 0,25 ponto, para 13,75% ao ano.

Plácido explica que a valorização do dólar ante o real deverá prejudicar a queda da inflação para a meta de 4,5% ao ano, "deixando o Copom em uma situação bem mais cautelosa para decidir os próximos passos da taxa básica de juros".

POLÍTICA, LAVA JATO...

O mercado financeiro acompanha com atenção o cenário político local.

Delações premiadas no âmbito da Operação Lava Jato seguem no radar, e os temores são de que denúncias possam atingir diretamente o governo Temer.

Uma nova crise política complicaria a aprovação das medidas de ajuste fiscal e atrasaria a recuperação da economia, afastando investidores.

Outro fator que provoca ruídos no mercado é a possibilidade de cassação da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A crise financeira dos Estados, em especial a do Rio de Janeiro, também é monitorada por investidores.

A reforma da Previdência, considerado essencial para sanear as contas públicas, deverá enfrentar resistências no Congresso.

"A pressão popular contra a reforma da Previdência deverá ser muito grande. Mas de nada adiantará aprovar limite de gastos públicos sem fazer reformas", avalia José Faria Júnior, diretor-técnico da Wagner Investimentos.

JUROS

O que pode empurrar os juros para baixo
A queda da inflação, que deve se aproximar da meta perseguida pelo Banco Central no próximo ano, a recuperação da economia e a aprovação das reformas propostas pelo governo Temer ao Congresso

O que poderia mudar a direção dos juros?
A inflação voltar a subir, o que pode ocorrer se o dólar continuar a se valorizar ou o Congresso rejeitar as medidas de ajuste fiscal propostas pelo governo

E o seu dinheiro com isso?
O momento é para investimentos com juros prefixados ou atrelados à inflação. Assim, o pequeno investidor garantirá remuneração maior mesmo com a redução dos juros

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BOLSA

O que pode fazer o Ibovespa subir
Como os juros nos países desenvolvidos estão baixos, investidores estrangeiros buscam opções mais rentáveis em países emergentes, como o Brasil, que se tornará mais atraente com a recuperação da economia

O que poderia empurrar a Bolsa pra baixo
A elevação da taxa de juros nos Estados Unidos pode fazer com que investidores estrangeiros deixem o Brasil. Eles também podem sair do país caso haja uma piora no cenário político e econômico

E o seu dinheiro com isso?
É difícil prever se a Bolsa está en em baixa ou prestes a subir, por isso investimentos em ações devem ser feitos apenas mirando o longo prazo. Só coloque na Bolsa o dinheiro que você aceita perder

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DÓLAR

O que faz o dólar subir
A previsão de que os juros americanos devem subir nos próximos meses. A incerteza sobre a economia americana após a eleição de Trump também faz com que investidores saiam do Brasil, e isso faz o dólar se valorizar

O que pode empurrar o dólar para baixo
A percepção de que a economia mundial demorará a se recuperar, com a manutenção dos juros baixos em países desenvolvidos. Isso manterá o interesse dos investidores por países como o Brasil

O dólar ainda deve apresentar oscilações bruscas de preço.
Se o plano é viajar, compre aos poucos. Investimentos em dólar são desaconselhados por planejadores financeiros.