Trump perceberá a importância de ficar no acordo do clima

Veículo: Valor Econômico 

Sessão: Internacional

Oitavo secretário­geral das Nações Unidas, o sul­coreano Ban Ki­moon, passou os últimos nove anos colocando as mudanças climáticas como prioridade na agenda internacional. Desde a eleição presidencial americana, contudo, uma das mais recentes expressões do multilateralismo, o Acordo de Paris, está sob ameaça. "Acredito na sabedoria e na liderança do presidente eleito Donald Trump", disse, quando questionado sobre a possibilidade de Trump cumprir sua promessa de campanha e retirar os Estados Unidos do regime climático.

Trump e Ban Ki­moon ainda não se encontraram. Falaram apenas pelo telefone. O sul­coreano, de 74 anos, desde 2007 à frente das Nações Unidas (ONU), espera que o presidente eleito americano tenha sensibilidade, senão ambiental, de negócios, para entender a importância de estar dentro do mesmo barco dos 110 países que ratificaram o acordo até agora. "A campanha política agora acabou e ele foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Tenho certeza que vai agir como um líder global."

Ban Ki­moon teve outras experiências difíceis ao longo destes anos, como convencer a administração de George W. Bush a se engajar nas negociações climáticas, assim como a Índia e a China. Neste período, percorreu o mundo, da Antártica ao Ártico, para ver os impactos da mudança do clima e contar aos líderes o que via e convencê­los a agir. Na base da crise migratória, diz, há um mix de descontentamento dos cidadãos com suas lideranças, desigualdades e injustiças, lutas e violência. 

A mudança do clima agrava a tensão ao provocar escassez de recursos. Ban Ki­moon deixa o posto no fim deste ano para o ex­ primeiro ministro português Antonio Guterres. Ao receber o Valor para uma entrevista exclusiva no Mamounia Hotel, em Marrakesh, onde acontece a conferência do clima, a CoP­22, ele comentou o distanciamento que enxerga entre alguns líderes e seus eleitores, e as mudanças de governos na Europa, na Ásia e nos EUA.

"Essa retórica política pouco convencional ganhou espaço", dificuldade, naquele tempo, foi que os líderes mundiais não tinham muita consciência sobre a severidade e a urgência da mudança do clima. Não sou um cientista, apenas uma pessoa política. Ao estar em contato com tantos cientistas entendi que este tema precisava de um empurrão político. Os líderes mundiais estavam bem desconfortáveis à época com o tema. Poucos concordavam em ter um diálogo sobre este assunto comigo. Quando convidei, pela primeira vez, os líderes para um encontro de cúpula em 2007, todos liam seus próprios documentos.

Valor: Quais foram as maiores dificuldades?

Ban: Convencer a administração republicana [do presidente George W. Bush] a se engajar foi um grande trabalho. Fazer a Índia se mexer e particularmente a China foi um esforço enorme. Fazer estes três gigantes se mexerem, sem mencionar a Rússia, foi uma grande tarefa. Valor: Nestes anos à frente das Nações Unidas o que o sr. viu de impacto em mudança do clima?

Ban: Eu quis falar vendo as coisas acontecendo em seu lugar. Fui à Antártica ver o derretimento do gelo. Depois fui à Amazônia brasileira ver o que era um desmatamento desenfreado, com árvores centenárias vindo abaixo e sendo vendidas por algumas centenas de dólares. Era de cortar o coração. Depois, no Ártico, encontrei comunidades indígenas, fui ver o lago Chad que está reduzido a um tamanho 16 vezes do que era originalmente, e isso em 30 anos. Vi situações devastadoras em muitos lugares.

Valor: O que foi mudando, na sua perspectiva?

Ban: Mudança do clima virou um tema da nossa vida. Dos governos, comunidades e da força mais poderosa, a sociedade civil, que tem levantado a voz. Instituições econômicas reviram seu caminho e agora entendem que uma economia de baixo carbono resiliente ao clima é a resposta para operações de sucesso e para as pessoas. E os líderes estão muito comprometidos. É onde estamos agora.

Valor: O Acordo de Paris é sobre um esforço comum buscando um resultado conjunto. Mas eventos políticos como a eleição de Donald Trump, o Brexit e outros parecem ameaçar o multilateralismo. Como o sr. vê o papel da ONU em manter o multilateralismo vivo diante destas ameaças?

Ban: O mundo está mudando de um modo de pensar mais racional para algo muito mais drástico. Estamos vendo mudanças de lideranças na Europa, na Ásia, agora nos EUA. Essa retórica política pouco convencional ganhou espaço entre as pessoas.

Valor: Por que o sr. acha que isso aconteceu?

Ban: Acredito que há uma situação séria de desigualdades e algumas pessoas sentem como injustiça. O quadro político mudou seu curso e temos que entender porque as pessoas têm sentido frustração e algumas vezes raiva. Acho que os líderes deveriam ouvir as aspirações desafiadoras e as queixas de seus eleitores. Isso têm ocorrido em vários países e é preciso entender estas situações. Mas acho que a mudança do clima é um assunto de outra natureza.

Valor: O que o sr. quer dizer?

Ban: É ciência e natureza. A natureza não negocia com seres humanos. São os seres humanos que têm que se ajustar e viver harmoniosamente com a natureza. Nosso comportamento tem sido abusivo durante os últimos dois séculos. Abusamos muito do nosso privilégio de viver na natureza. É por isso que as vozes em torno da mudança do clima vêm se ampliando. E agora os líderes escutaram e entenderam isso. Em 2014, quando chamei uma cúpula climática em Nova York, em Manhattan, havia 400 mil pessoas marchando nas ruas. Fui um deles, junto a vários líderes e celebridades.  Os líderes têm que ouvir as pessoas, suas demandas e queixas, sugere. Leia trechos da entrevista que ele concedeu com temas críticos para as Nações Unidas, mas sob a ótica da mudança do clima.

Valor: O sr. priorizou a mudança do clima na agenda da ONU. Pode contar uma situação realmente difícil que tenha tido no processo e outra em que seus esforços pessoais tenham acelerado o consenso?

Ban Ki Moon: Mudança do clima foi uma das minhas prioridades junto com os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio à época ­ e agora os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ­ e fortalecimento de gênero. Dei a eles a mesma prioridade, mas mais para a mudança do clima.  

Valor: Qual o momento agora?

Ban: Temos que transformar o Acordo de Paris em ação. Não temos tempo a perder. Acho que todos entenderam isso. Viajei a muitas pequenas ilhas do Pacífico, países que estão afundando. Algumas delas, como Kilibati, estão negociando a compra de territórios em outros lugares, em Fiji ou Austrália. São os migrantes ambientais. Esta é uma rota que não pode ser parada. Já viramos esta esquina em termos de compromisso político, de movimento civil. As vozes para a mudança do clima eram, dez anos atrás, uma cacofonia. Agora são um movimento.

Valor: A crise da Síria tem base também na mudança do clima que, no futuro, pode motivar ondas migratórias ainda maiores. Mas os países estão falando em construir muros e fechar fronteiras. Como os governos deveriam lidar com esta crise humanitária?

Ban: Se olharmos para as causas reais de muitas crises que estamos vivendo, veremos uma larga coleção de impactos da mudança do clima com custos devastadores para a economia. Se as economias não funcionam bem, a vida das pessoas fica em condição miserável. Isso leva à instabilidade política, que resulta em lutas e violência. Esta é uma questão importante.

Valor: Há estudos da ONU sobre esta correlação?

Ban: Sim. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Pnuma, lançou 10 anos atrás um relatório dizendo que uma das razões da crise em Darfur foi a falta de água e a luta pela água e terra. Muitas tribos se deslocando, lutaram entre elas pelo território.

Valor: O sr. vê estes cenários se repetindo?

Ban: Toda a questão da Síria, Iêmen e do Sudão do Sul vêm da insatisfação popular contra as lideranças. Por isso sempre digo aos líderes mundiais: Por favor, escutem cuidadosamente as vozes das pessoas, quais são suas aspirações e demandas. Um ponto de decepção na minha vida, como secretário­geral, foi que alguns líderes ficaram desconectados das pessoas. Isso é uma das razões principais pelas quais estamos vendo tantos problemas.

Valor: No clima e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Índia e Brasil tiveram protagonismo. Mas quando se trata do coração da ONU, o Conselho de Segurança, estes países não têm lugar. O sr. acha que esta situação está mudando?

Ban: Para lidar com todas estas questões temos que ter boas instituições e mecanismos. A ONU foi fundada depois da Segunda Guerra Mundial. Aprendemos lições muito duras deste período e ainda estamos aprendendo. Mas a velocidade do aprendizado pelos líderes mundiais não têm dado conta dos desejos das pessoas e das mudanças que estão ocorrendo. Uma área seria a reforma do Conselho de Segurança, que está ali quase desde o começo da ONU. Considerando as mudanças tremendas que ocorreram nas últimas sete décadas seria natural que as instituições da ONU, incluindo o Conselho de Segurança, devessem mudar, ter mais transparência, mais democracia, mais representatividade.

Valor: Mas isso não acontece.

Ban: De alguma forma, embora os Estados membros peçam mudanças, não são capazes de apresentar fórmulas razoáveis e aceitáveis. Cada país apresenta sua própria proposta baseada em sua perspectiva nacional em vez de uma perspectiva global. E assim há sempre conflitos.

Valor: Se o pior cenário acontecer e Donald Trump retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, e talvez até da Convenção do Clima, como o sr. acha que a meta de salvar o planeta pode acontecer?

Ban: Em primeiro lugar acredito na sabedoria e na liderança do presidente eleito Donald Trump. Ele conquistou sua popularidade muito em função do sucesso de suas grandes operações. É conhecido como um bem­sucedido homem de negócios global. Bem, grandes negócios nos Estados Unidos, sem mencionar em outras partes, têm investido em energia renovável e desenvolvimento sustentável. A Califórnia, Washington e grandes cidades como New York, Los Angeles, todos estão mudando. Em Chicago, o prefeito quer que todos os velhos edifícios aumentem sua eficiência energética.

Valor: Energias renováveis vêm batendo recordes no mundo e queda de preço.

Ban: Desenvolvimento e energias sustentáveis são peças­chaves da agenda climática, uma agenda que começou na Rio+20, em 2012. Foi lá que estvontade política começou, com os líderes mostrando união de propósitos. O mundo agora está se mexendo muito mais rápido nesta direção. E também os EUA, a maior economia, o país mais poderoso do mundo, mais cheio de recursos, se deram conta que esta é a resposta que irá ajudar não apenas a economia americana, mas todas.

Valor: O sr. se diz otimista em relação ao comportamento do presidente eleito Donald Trump em relação ao regime climático.

Ban: A China está a bordo também e está virtualmente remodelando toda a sua economia e modelos sociais para que sejam mais resilientes à mudança do clima. Isto é algo enorme, uma grande tendência. Estou muito otimista que o sr. Trump irá entender esta situação econômica. A campanha política agora acabou e ele foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Tenho certeza que vai agir como um líder global.

Valor: Os EUA e o presidente Obama foram atores­chave para que o Acordo de Paris fosse possível. Se Trump cumprir a promessa, haverá um vácuo de liderança. Quem o sr. vê neste lugar?

Ban: Tentarei ter um encontro com o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, para discutir assuntos de interesse mútuo, temas de segurança, incluindo mudança do clima, e outras questões da ONU. Quero enfatizar que o mandato de qualquer político é decidido pelo povo e líderes têm que responder às demandas do povo, mas desenvolvimento sustentável e mudança do clima são assuntos universais. 

O resultado desses esforços reflete principalmente o denominador mais comum dos Estados membros, incluindo os EUA. Todas essas decisões, que foram tomadas em processos dolorosos que duraram duas décadas, deveriam ser respeitadas. Não fazer isso não é bom e nem justo para um líder global. Estou confiante que o acordo do clima será honrado pelo governo dos EUA e por todos os países. A repórter viajou a Marrakesh a convite do Instituto Clima e Sociedade