Sem endosso da realidade, economia se descola da expectativa

Véiculo: Valor Econômico

Sessão: Noticias 

A afirmação de que as expectativas não correspondem à realidade retrata com exatidão o momento atual da economia brasileira. Desde março, os índices de confiança calculados pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV) foram impulsionados por forte alta dos indicadores que medem perspectivas futuras, em descompasso com a avaliação da situação por empresários e consumidores.

O descolamento é maior no Índice de Confiança do Consumidor (ICC), em que o Índice de Expectativas (IE) superou em 23,6 pontos o Índice de Situação Atual (ISA) em setembro, maior diferença desde dezembro de 2007. No Índice de Confiança Empresarial (Ice) - que agrega os setores de serviços, indústria, construção e comércio - a distância entre o IE e o ISA diminuiu de agosto para setembro, mas permanece em patamar elevado, de 12,4 pontos.

Para economistas, o otimismo não se materializou por uma série de fatores, como perda de fôlego do setor externo, frustração em relação à velocidade do ciclo de afrouxamento monetário e, também, fatores pontuais que prejudicaram a atividade industrial em agosto e setembro. Nos próximos meses, como ainda não houve resposta da economia, a avaliação é que as expectativas devem ser ajustadas para baixo, como já ocorre em alguns setores.

"Os empresários estão mais realistas, enquanto a percepção do consumidor está um pouco defasada", diz Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas do Ibre, que destaca o comportamento atípico dos dados na recessão atual. Segundo estudo publicado por Campelo no Boletim Macro em conjunto com o professor Paulo Picchetti, quando mais de 22,3% dos empresários consultados na Sondagem da Indústria consideram a situação atual desfavorável, há uma distorção na variável de expectativas, o que costuma ocorrer durante crises econômicas.

Nas crises anteriores após o Plano Real, mais curtas, o nível de insatisfação elevado permaneceu durante apenas um ou dois meses. "Desta vez estamos há alguns meses com um nível de insatisfação muito grande por um bom tempo", disse Campelo, o que, em sua avaliação, vai levar a um movimento de correção para baixo das expectativas nos próximos meses. Entre setembro e outubro, o índice de expectativas empresarial caiu 2,7 pontos, para 87,7 pontos, com retração na indústria, serviços e comércio.

Além da mudança de governo, que levou a uma percepção de que a instabilidade política ficaria menor, a melhora das perspectivas de empresários, no caso da indústria, teve a demanda externa como outro vetor, observa o economista da FGV, mas esse impulso já arrefeceu. "A indústria começou a substituir importações e exportar mais e, no momento seguinte, a produção física subiu. Quando o câmbio passou a se apreciar, o canal externo perdeu fôlego e a demanda interna não voltou."

Para Rodolfo Margato, do Santander, o cenário mais favorável que se desenha para a demanda em 2017 - com desaceleração da inflação, redução dos juros e estabilização do mercado de trabalho - pode explicar o descompasso entre expectativas e avaliação da situação atual dos consumidores. Do lado dos empresários, além da desvalorização do câmbio, o momento de início e a magnitude do corte de juros pode ter representado outra frustração, depois de ter elevado as expectativas em um primeiro momento, afirma Margato.

Considerando apenas o comportamento dos indicadores de confiança, era de se esperar desempenho melhor que o previsto para o Produto Interno Bruto (PIB) entre o segundo e o terceiro trimestres, diz o economista. "Tínhamos uma projeção de queda de 0,3%, mas, provavelmente a contração vai ficar entre 0,5% e 1%". Mesmo assim, Margato não considera que os dados de confiança representaram um "falso positivo", principalmente para a indústria. "A confiança industrial tem série mais longa e antecipou a reversão da produção industrial e dos investimentos."

Jankiel Santos, economista-chefe do Haitong, concorda que, ao analisar apenas a evolução da confiança, alguma reação da atividade já deveria ter ocorrido. "As esperanças quanto ao futuro, no entanto, estão mais robustas do que a situação atual", afirma, acrescentando que, para que haja recuperação de fato da atividade, é preciso que esses últimos indicadores também subam, diminuindo o descolamento em relação às perspectivas.

Com base no índice da indústria da FGV e na confiança do consumidor da cidade de São Paulo, calculada pela Fecomercio-SP - os únicos índices com série histórica anterior a 2000 - Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, afirma que o atual descompasso entre expectativas e momento atual não foge muito do script de qualquer recessão. Na média destes dois indicadores, essa diferença se estabilizou em torno de 45 pontos desde junho. Na crise de 2003, o pico foi de 41 pontos.

"O descompasso está ocorrendo há mais tempo, mas isso tem a ver com a duração da recessão atual, de quase dois anos e meio", nota Borges. A fase atual do ciclo apontada pelos índices de confiança com série mais longa é de recuperação, diz o economista, mas a melhora não veio no PIB do terceiro trimestre devido a um conjunto de "ruídos negativos". Os principais foram a paralisação temporária da produção da Volkswagen, que derrubou em quase 4% a atividade industrial, e a greve dos bancários, que teve duração maior em 2016 e derrubou as concessões de crédito.

Com a reversão dos fatores temporários, o PIB trimestral deve voltar ao campo positivo nos últimos três meses de 2016, avalia Borges. Se a economia seguir a trajetória ocorrida nas duas recessões dos anos 80, as mais similares à atual, o PIB cresceria entre 2% e 2,5% em 2017, calcula. Por isso, a projeção da consultoria de alta de 1,5% no período não pode ser considerada otimista, argumenta o economista da LCA.

Mais cautelosa, a equipe de conjuntura do Ibre projeta aumento de apenas 0,6% do PIB no próximo ano. As sondagens sinalizaram bem o momento da virada, afirma Campelo, principalmente para a indústria, mas corroboram a visão de que a recuperação será lenta.