Varejo fraco no 3º trimestre indica estagnação mais longa

Veículo: Valor Econômico

Sessão: Brasil

A retração maior do comércio no terceiro trimestre reforçou perspectivas mais negativas para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no período, assim como a percepção de que não haverá reação do consumo no curto prazo. 

Divulgada ontem pelo IBGE, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) mostrou queda de 1% no volume de vendas restritas ­ que excluem automóveis e material de construção ­ na passagem de agosto para setembro, feitos os ajustes sazonais, pior resultado para o mês desde 2002. Com o dado ruim do mês, o varejo restrito encolheu 1,7% em relação ao segundo trimestre, recuo mais forte do que o observado no trimestre anterior, de 0,5%. 

O tombo do varejo ampliado ­ que considera, além dos oito setores do restrito, os de veículos e material de construção ­ também se acentuou no período, embora a retração mensal tenha sido mais leve do que o previsto (­0,1%). A queda trimestral do setor ficou em 2,7% de julho a setembro, contra redução de 1,7% entre abril e junho.

Na passagem mensal, sete dos dez setores pesquisados pelo IBGE diminuíram suas vendas. As maiores influências negativas em setembro vieram dos segmentos de supermercados e móveis e eletrodomésticos, que encolheram 1,4% e 2,1% na comparação com agosto, respectivamente. 

Segundo cálculos da LCA Consultores, as vendas dos setores mais dependentes da renda recuaram 0,9% no mês. Na outra ponta, o volume comercializado no setor de veículos subiu 2,9%, depois de três retrações consecutivas, expansão que, para economistas, não representa uma tendência, diante da deterioração contínua do mercado de trabalho e das concessões de crédito. 

Graças aos veículos, as vendas dos setores mais sensíveis ao crédito subiram 0,5% ante agosto, calcula Paulo Neves, economista da LCA, primeira alta em seis meses. Os outros componentes do subgrupo são os setores de tecidos, vestuário e calçados, móveis e eletrodomésticos, equipamentos e material para escritório e material de construção.

 "As condições de crédito se deterioraram em setembro, em função da elevação da taxa média de juros nas operações voltadas à compra de bens duráveis, excluindo veículos", diz Neves. Para Rafael Leão, economista­chefe da Parallaxis, o aumento das vendas de automóveis representa uma devolução parcial da queda registrada em agosto, de 4,7%, quando a atividade do setor foi afetada pela paralisação de fabricantes de autopeças.

 O cenário para o consumo, no entanto, permanece negativo, afirma Leão, uma vez que os fatores que pesam sobre a demanda não devem ser revertidos neste ano. São eles, em sua avaliação, o aumento do desemprego, a redução dos rendimentos reais do trabalhadores, a restrição ao crédito e a inflação ainda alta.

A desinflação em curso é o único vetor positivo para varejo no quadro atual, afirma Rodrigo Alves de Melo, economista­chefe da Icatu Vanguarda. Esse processo, no entanto, terá efeito sobre a renda somente em 2017, pondera, na medida em que os ocupados forem recebendo reajustes salariais acima da inflação acumulada em 12 meses, algo que não está ocorrendo este ano. "As concessões de crédito e a retração da massa salarial não sinalizam um bom momento para o consumo, e também não há um cenário de crescimento para os próximos meses", avalia Melo.

O desempenho do varejo reforçou a projeção da Icatu para o PIB, de recuo de 1% entre o segundo e o terceiro trimestres, observa o economista, que não espera melhora do consumo nem da atividade nos últimos três meses do ano. Indicadores já divulgados para outubro corroboram essa percepção, diz Melo, como as vendas de veículos medidas pela Fenabrave (entidade que reúne as concessionárias), que caíram 17,2% sobre outubro de 2015, e as consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) para vendas a prazo, que ficaram 4,7% menores na mesma comparação.

Enquanto o mercado de trabalho não reagir, o comércio seguirá com desempenho fraco, concorda Isabella Nunes, gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE. "Há uma perda de ritmo nos últimos três meses, com relação direta com o enfraquecimento do mercado de trabalho e uma pressão inflacionária sobre alimentos e bebidas", afirmou Isabella, para quem ainda não há um quadro de recuperação do setor. Após a divulgação do número de setembro, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) revisou sua estimativa para a queda do varejo restrito em 2016, de 5,4% para 6%.

 Segundo a entidade, a manutenção do cenário desfavorável para o mercado de trabalho, além do alto custo do crédito, ainda afetam o volume de vendas do varejo. Para o comércio ampliado, a projeção da CNC passou a redução de 9%, ante recuo de 9,5% anteriormente.