Presidente eleito terá dilema entre inflação e base social

Veículo: Valor Econômico

Sessão: Internacional 

O magnata Donald Trump, 70, que se elegeu ontem o 45º presidente dos Estados Unidos, terá que abandonar uma das promessas de campanha ­ fechar o comércio ou aumentar o gasto público ­ para impedir que a combinação de ambas, num cenário de déficit elevado, provoque um inevitável crescimento da inflação americana e, por consequência, o aumento da taxa de juros pelo Fed. É o que prevê o professor do Centro de Relações Internacionais da FGV­SP Matias Spektor. Sua aposta é que Trump vai recuar no protecionismo. 

O problema é que o republicano tem um incentivo grande para honrar a promessa. "A base eleitoral do Trump são as pessoas que perderam com a globalização", diz o especialista. Spektor concorda que os trabalhadores sindicalizados que perderam empregos na indústria são minoria em relação ao setor de serviços. Mas destaca que enquanto a globalização tem defensores difusos ou de baixa reputação ­ FMI, Banco Mundial e G­8 ­ e até hoje não encontrou sua "tração eleitoral" nas grandes democracias, o nacionalismo de Trump é mais facilmente vendável como tábua de salvação para os perdedores organizados.

"O que gera um grupo de interesse organizado é quando o Estado dá a esse grupo uma prebenda, um benefício por ele se organizar", afirma, citando o Brasil como caso onde o debate sobre o livre­comércio foi "completamente dominado pela minoria que se beneficia de proteção", incluindo aí corporações como Fiesp e CUT.

Para Spektor, a eleição de Trump é resposta da classe média das grandes democracias, que passou a pagar o custo social da globalização. "A globalização geralmente beneficia os pobres mais pobres e os ricos mais ricos", diz. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor:

Valor: Quais são os principais impactos da vitória de Donald Trump para o Brasil?

Matias Spektor: O Brasil é altamente dependente da saúde da economia americana. O Trump fez duas promessas à sua base eleitoral: por um lado, recuperar empregos por meio do aumento significativo do gasto público e da redução de impostos e, por outro, fechar comércio, não assinar acordos comerciais. Para um país que está com um déficit, a única maneira de honrar as duas promessas é com o aumento galopante da inflação. O problema é que esse aumento é intolerável eleitoralmente em 2020. Uma destas duas coisas vai ter de ceder. Parece­me que é o compromisso com comércio fechado. Para o Brasil o que mais impacta é isso. Se subir a inflação, haverá também um aumento da taxa de juros americana. Isso significa que o dinheiro sai do Brasil e dificulta enormemente o processo de recuperação econômica. Seria 

péssimo e devastador para o Brasil e para o resto do mundo. Não tem setores ganhadores no Brasil, se houver um processo progressivo de fechamento da economia internacional.

Valor: Trump abrirá mão do protecionismo?

Spektor: O problema é que ele tem um incentivo muito grande para honrar essa promessa. Porque a base eleitoral do Trump são as pessoas que perderam com a globalização. Essa não é a base da Hillary Clinton. A base dela é de gente que nos últimos 30 anos ganhou com a globalização, por exemplo, os latinos e os negros americanos. Essas pessoas mudaram de vida e para melhor. Por outro lado, são empregadas por setores da economia americana de serviços, que é ganhadora do processo de globalização. Quem é perdedor do processo de globalização na economia americana é a indústria pesada. É o cinturão das cidades industriais onde o desemprego aumentou muito entre uma faixa da população que é relativamente sênior, não é jovem, é branca, e estava acostumada às proteções do capitalismo do pós­guerra.

Valor: O setor de serviços tem participação muito maior do que a indústria em boa parte das economias. Estes perdedores da globalização teriam trabalhadores suficientes para influenciar a eleição?

Spektor: É uma excelente pergunta. Não, não teriam peso, que nem na Inglaterra com o Brexit. Quem perde de fato é uma minoria. Mas num ambiente de descontentamento generalizado com a classe política e de polarização, muita gente que não é perdedora se enxerga como perdedora. Veja o que acontece no Brasil. A maior parte dos trabalhadores brasileiros ganhou com a globalização. Trabalhador da indústria, sindicalizado, é perdedor do processo de globalização. Porque o que a globalização faz é desterritorializar a produção industrial. Você deixa de fazer o carro inteiro em São Bernardo do Campo. Quem perdeu foi o trabalhador sindicalizado do ABC paulista. No entanto, o argumento pró­globalização no Brasil é perdedor. Valor: Em que sentido? Spektor: A maior parte dos brasileiros é contra o processo de globalização. Não tem grandes defensores do livre­comércio no Brasil. Mas o comércio fechado beneficia quem? O trabalhador sindicalizado do ABC paulista, que é minoria eleitoral, e beneficia a Fiesp, que também é minoria eleitoral. Nas grandes democracias, geralmente quem se beneficia da globalização não são grupos de interesse organizados, capazes de vocalizar demandas junto ao Parlamento.

Valor: A globalização não cria uma base social para defendê­la?

Spektor: Ela não cria grupos de interesse organizados. Porque o que gera um grupo de interesse organizado é quando o Estado dá a esse grupo de interesse uma prebenda, um benefício por ele se organizar. Então, há o sindicato disso, o sindicato daquilo, ou o conselho dos juízes. Os caras se organizam, vão pedir aumento de salário e o Estado concede esse aumento. Quando você tem um bem público geral, que é o caso do livre­comércio, que ajuda a aumentar a produtividade, o crescimento econômico e a reduzir a inflação, é difícil você achar um grupo que se organiza para defender algo tão difuso.

Valor: A globalização carece de instituições que a fortaleçam?

Spektor: Sim, quem defende a globalização são instituições que têm péssima reputação. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o G­8 são instituições de governança global que não conseguiram desenvolver um argumento que tenha tração eleitoral junto à opinião pública das grandes democracias. Em contraste, o descontentamento com a globalização acaba gerando a expectativa de que uma liderança, legitimamente constituída, pode fazer frente a um mundo turbulento. Como se fosse possível, para uma liderança política nacional, criar anteparos a forças que são transnacionais e inerentes ao processo de transformação do capitalismo, que por definição termina desterritorializando a produção.

Valor: Nesse sentido, a eleição de Trump é uma contradição ou uma reação ao processo histórico? Spektor: Ela está alinhada ao processo histórico porque é o processo pelo qual a classe média das grandes democracias ocidentais ­ dos Estados Unidos, da França, da Grã­Bretanha, da Espanha, da Itália ­ passam a pagar o custo social da globalização, que é a redução do benefício das classes médias tradicionais em favor de outros grupos sociais.

 A globalização geralmente beneficia os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, em detrimento das classe médias que dependem da provisão de benesses do Estado para a sua proteção. Isso chama tanta atenção no Brasil porque esse debate aqui foi completamente dominado pela minoria que se beneficia de proteção, formada por exemplo pela Fiesp e centrais sindicais como a CUT.

Há uma certa indiferença da sua classe e da minha. Somos da classe alta brasileira. Quando queremos comprar um computador ou até roupa de algodão vamos aos Estados Unidos e trazemos como muamba, sem pagar imposto na alfândega ­ em vez de reclamarmos com nosso voto. 

Quem paga o custo é a nossa faxineira, que não tem chance de comprar fora. Valor: Não houve rompimento ou divergência de interesses entre Fiesp e CUT, durante a crise que levou ao impeachment de Dilma? Spektor: Em muitas instâncias, são convergentes. A Fiesp e a CUT têm a mesma agenda em relação ao livre­comércio, que é fechá­lo. 

O melhor exemplo é o senador pelo Estado de São Paulo José Serra. Ele diz que o problema da economia brasileira é que ela é aberta demais. Ele é representante dos interesses de São Paulo, que é um Estado protecionista. 

É diferente de Goiás, do Tocantins e do Mato Grosso, que são produtores de commodities e cujos governadores são defensores do livre­comércio. Toda missão de acordo comercial tem governadores daqueles Estados, não o Alckmin.