BC formaliza mudanças em sua forma de comunicação

Veículo: Valor Econômico

Sessão: Finanças

Após concluir sua rodada de reuniões trimestrais com economistas do mercado financeiro de São Paulo e do Rio de Janeiro, o Banco Central divulgou uma nota à imprensa, na terça­feira, relatando um resumo do que havia sido dito pelos diretores: a comunicação do Banco Central não deve ser lida por meio de palavras específicas nem por comentários de um diretor, mas nos documentos oficiais. 

Com isso, o BC oficializou algo que já vem indicando há algum tempo ao mercado ­ e nem sempre compreendido de forma plena. E usou um dos novos elementos de sua estratégia de comunicação: tornar público o que foi dito a um grupo restrito em vez de deixar que interlocutores levem a mensagem ao mercado. Essa prática de maior transparência já foi vista em outras situações. 

Além de informar por meio da agenda oficial do BC os encontros do presidente da instituição, Ilan Goldfajn, e de seus diretores com representantes do mercado financeiro, qualquer informação ou análise diferente que venha a surgir nesses compromissos é transmitida em seguida em entrevista à imprensa ou, como ocorreu na última terça­feira, por uma nota oficial. Os diretores têm feito menos discursos e, quando se manifestam, o fazem de forma mais coesa, observa Sérgio Werlang, ex­diretor do Banco Central e assessor da Presidência da Fundação Getulio Vargas.

O aprimoramento desse canal é considerado fundamental para a retomada da confiança do mercado e eficácia da política monetária porque contribui para diminuir a volatilidade tanto dos juros futuros quanto das expectativas dos economistas. Mas não elimina completamente ruídos ou dúvidas ­ o que fica claro quando se olha a grande dispersão de expectativas sobre o rumo da política monetária no ano que vem.

Um bom exemplo foi o que ocorreu na última reunião de política monetária, quando o mercado mostrou­se surpreso com o teor do comunicado da decisão, que destacou os riscos no cenário de inflação e levou a curva de juros a reduzir para cerca de três pontos percentuais a projeção do tamanho do ciclo de alívio monetário, depois de ter previsto algo como 3,75 pontos. Ainda assim, na visão dos especialistas, está produzindo frutos positivos sobre as expectativas. 

Werlang diz que o BC tem cumprido o papel de mostrar ao mercado o que consegue ver, quais são suas certezas e também suas dúvidas. "A teoria macroeconômica tem um erro de previsão muito grande. É um componente que depende de arte, de bom senso." "Quando o Banco Central explica suas razões e mostra a evolução do cenário, os agentes vão dar mais peso às decisões de política monetária", afirma Werlang. "Com os dados disponíveis, é difícil dizer quanto da melhora das expectativas que já se viu pode ser atribuída à comunicação. Mas, no futuro, certamente a história mostrará que o peso foi grande." Desde que Ilan foi indicado para a presidência do BC, a projeção do mercado para o IPCA em 2017 cedeu de cerca de 5,70% para 5%. 

José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre, da Fundação Getulio Vargas, e ex­diretor do Banco Central, observa que, inspirado no Federal Reserve (Fed), o BC tem apresentado em suas atas uma forma clara, que inclui o cenário básico, a descrição dos riscos, a discussão dos diretores e a decisão. "É uma forma consolidada de se comunicar com o público", diz. "Modernamente, se entende que quanto mais o mercado entende o que o BC está fazendo, mais eficiente é a política monetária", diz Senna.

Ele observa que, passada a primeira "rodada de melhora" das expectativas, entre abril e junho, sob efeito da mudança da equipe econômica em função do processo de impeachment da ex­presidente Dilma Rousseff, o mercado entrou em "compasso de espera" pelo que viria a ser a política monetária do novo BC. E os primeiros sinais emitidos foram mais duros: a autoridade disse que alcançar a meta de 4,5% seria possível e indicou que um alívio monetário dependeria de uma convergência das projeções para a meta, inclusive no cenário de mercado.

 "O fato de o BC sinalizar que a inflação de 4,5% era possível ajudou muito, gerou um efeito sobre as expectativas somente com a comunicação", diz. Senna explica que o BC tentou deixar claro nesse momento o conceito de "inflation forecast target", princípio muito caro ao sistema de meta de inflação que estabelece as projeções de inflação como uma meta intermediária. Como nenhum BC tem controle sobre o índice de inflação, sujeito a choques de naturezas diversas, é preciso escolher um ponto intermediária que esteja muito correlacionada à meta final e ter controle sobre ele. "O modelo você consegue calibrar", observa.

 "Trabalhar com esse número é muito importante porque o público tem que entender o que o BC está mirando." Na visão do especialista, a primeira mensagem transmitida pelo BC foi considerada excessivamente "hawkish", jargão do mercado para definir uma postura a favor de juros altos. E foi ajustada em seguida, quando o BC disse que levava em consideração muitos modelos para tomar suas decisões e que uma dose de subjetividade seria adotada. 

"Nesse momento, parecia que a primeira comunicação havia sido alterada drasticamente. Mais tarde, ficou claro que não foi", diz. De todo modo, o mercado sentiu­se encorajado a apostar em cortes de juros mais rápidos e intensos. Outra declaração que reforçou a queda dos juros foi a de que o horizonte relevante da política monetária "não é estático", sugerindo que as decisões dali para frente atingiriam de forma mais efetiva a inflação de 2018, período para o qual a projeção de inflação está abaixo da meta. Essa ideia foi ajustada na ata da última reunião do Copom.

 "O BC não havia deixado claro que estava focando também em 2017, como fez na última ata do Copom, e a adaptação dessa mensagem não ocorreu imediatamente", afirma Senna. O economista diz que há outro aspecto importante na comunicação do BC, que não é constituído por palavras, mas sim de forma operacional. Senna diz que, ao cortar o juro em 0,25 ponto, num ritmo inferior ao que o mercado deseja, o BC está mostrando que será mais conservador, o que ajuda a jogar as expectativas para baixo.

 "É indispensável que ele continue jogando as expectativas para baixo no 'gogó', mas também pelo operacional", diz Senna. "Quanto mais conservador o BC for no início, mais agressivo ele será no tempo."