Santander lucra mais e segue para melhor ano desde 2009

Veículo: Valor Econômico 

Sessão: Finanças 

Em meio a calotes bilionários no sistema financeiro, o Santander Brasil caminha para encerrar 2016 como o melhor ano desde sua abertura de capital na bolsa brasileira (IPO, em inglês), em 2009.

Depois de uma série de promessas de crescimento frustradas ao longo dos últimos anos, a instituição financeira parece ter convencido investidores de que será capaz de galgar parte da distância que a separa de seus outros dois grandes concorrentes privados, Itaú Unibanco e Bradesco, seja em termos de ativos, seja em termos de rentabilidade. "Com três quartos do ano agora passados, podemos dizer com alto grau de confiança que 2016 está em vias de ser o melhor ano para o banco desde seu IPO em 2009", escrevem os analistas Eduardo Rosman e Thiago Kapulskis, do BTG Pactual. 

"Ainda que a rentabilidade se mantenha baixa, particularmente comparada a Itaú e Bradesco, pode ser facilmente defendido que o Santander está no caminho certo para reduzir essa diferença nos próximos anos." O Santander Brasil registrou lucro líquido de R$ 1,884 bilhão no terceiro trimestre deste ano em termos gerenciais, excluindo despesas com amortização de ágio e outros itens não recorrentes. O resultado representa uma alta de 10,3% na comparação com o ganho obtido no mesmo período do ano passado.

 Analistas consultados pelo Valor projetavam lucro médio de R$ 1,461 bilhão. O retorno sobre patrimônio líquido divulgado pelo banco com base no resultado ajustado foi de 13,1% ­ no Itaú, está próximo de 20%. As ações do banco são um bom termômetro desses novos humores. Há pouco mais de uma semana, os papéis do Santander finalmente voltaram a ser negociados acima do valor da abertura de capital ­ o que não ocorria desde novembro de 2010. Na oferta inicial do banco, em 7 de outubro de 2009, a ação saiu cotada a R$ 23,50. O papel voltou a subir ontem fechou a R$ 25,05.

O volume médio diário de negociação das units do Santander em 2016 é de cerca de R$ 24,6 milhões, liquidez menor que a dos demais grandes bancos, mas suficiente para lhe garantir um lugar no Ibovespa. As ações do banco já tiveram liquidez maior, antes de a matriz espanhola recomprar pouco mais da metade das units do banco em circulação na bolsa brasileira, em 2014.

Depois dos resultados do terceiro trimestre, os analistas do BTG passaram a avaliar que há chance de o Santander entregar números acima dos projetados por eles. No entanto, por ora, mantiveram a ação do banco em recomendação de "venda". "Esse foi o décimo primeiro trimestre consecutivo de crescimento do lucro e um dos melhores da história do banco. Há muito por fazer ainda, mas o que é importante aqui é a consistência", diz Sergio Rial, presidente do banco, em entrevista a jornalistas. 

"Mais cedo ou mais tarde, as corretoras vão se dar conta que hoje temos um nível de consistência muito maior do que tínhamos, mas isso precisa ser conquistado trimestre a trimestre." Embora Rial esteja hoje à frente da instituição financeira, parte da melhora colhida por ele agora foi plantada por seu antecessor, Jesús Zabalza, que comandou o banco de 2013 até janeiro deste ano. Executivos do banco atribuem a Zabalza o legado de ter deixado a "casa em ordem" para Rial, fazendo, por exemplo, com que a inadimplência do banco entrasse em trajetória de queda e que o banco conseguisse melhorar processos a ponto de perder o posto de líder no ranking de reclamações do BC.

Com a fundação montada pelo predecessor, Rial conseguiu concentrar esforços em maneiras de rentabilizar o balanço e a base de clientes da instituição financeira, reduzindo custos de captação, aumentando o volume de tarifas por correntista e controlando despesas.

 Os números do terceiro trimestre mostram resultados de algumas dessas medidas. As receitas de prestação de serviços e tarifas bancárias do Santander subiram 17,7% no terceiro trimestre na comparação anual, para R$ 3,437 bilhões, puxadas pelos ganhos com cartões e contas correntes. Já as despesas gerais do banco no trimestre aumentaram 5,8% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 4,535 bilhões.

A margem financeira do Santander também melhorou, apesar da estagnação do crédito, e foi 8,3% superior à registrada no mesmo período do ano passado, somando R$ 8,27 bilhões. No período, a margem de crédito subiu apenas 0,2%, compensada pela margem de depósitos (que reflete a queda nos custos de captação do banco), que subiu 37%, e pelo resultado de tesouraria, que cresceu 23,7% na mesma comparação.

 O Santander fechou o terceiro trimestre com saldo de R$ 310,965 bilhões na carteira de crédito ampliada, que inclui avais e fianças, recuo de 6,3% na comparação com setembro do ano passado, mas alta de 0,8% desde o fim de junho. Já o índice de inadimplência acima de 90 dias do banco foi de 3,5% em setembro, ante 3,2% em junho e 3,2% no mesmo período do ano passado. O avanço era esperado e foi puxado por um caso pontual de inadimplência corporativa, que analistas acreditam se tratar da Sete Brasil, que entrou em recuperação judicial. 

Na pessoa física, a inadimplência do banco teve leve melhora, encerrando setembro em 4,3%, ante 4,4% em junho e 4,6% em setembro do ano passado. Rial acredita em uma melhora mais consistente do indicador a partir do primeiro trimestre de 2017. Desde a abertura de capital, em outubro de 2009, a trajetória do Santander no Brasil foi marcada pela dificuldade de pôr em prática ambiciosos planos de expansão. Logo depois da oferta inicial do banco, que movimentou R$ 14,1 bilhões, Fabio Barbosa, então presidente do Santander Brasil, afirmou que o banco queria ser o melhor e mais eficiente banco do país e dar o maior retorno para o acionista até 2013, objetivo que não se cumpriu. 

De lá para cá, o banco devolveu, no fim de 2013, aos acionistas parte do capital que conquistou no IPO de 2009, na forma de um dividendo de R$ 6 bilhões, e a matriz espanhola recomprou 56% das units da subsidiária brasileira em circulação no mercado. O banco também não conseguiu levar alguns dos principais ativos que foram postos à venda no sistema brasileiro nos últimos anos, como o HSBC Brasil e a unidade de varejo do Citi. 

"O Sergio Rial é um homem de crescimento orgânico", se autodefiniu o executivo. Sobre o Citi, em cujo processo de venda o Santander chegou a ser apontado como favorito ­ acabou ficando para o Itaú ­, Rial disse que o "valor estratégico da aquisição em relação à distração que causaria era desproporcionalmente maior que o merecido".