Bônus 'verde' ainda esbarra em baixo apelo econômico

Desconhecimento e baixo apelo, especialmente do ponto de vista econômico, estão entre alguns dos entraves ao desenvolvimento do mercado brasileiro de emissão de títulos verdes. A perspectiva, contudo, é de que cedo ou tarde os "green bonds" assumam um papel importante na transição para uma economia verde, entre outros, como opção de financiamento dos investimentos necessários para cumprir as metas de redução dos impactos ambientais no âmbito do Acordo de Paris.

Os chamados "green bonds" são títulos de dívida emitidos para financiar projetos ligados à sustentabilidade. No Brasil, foram feitas apenas duas emissões externas de títulos verdes. A BRF captou cerca de € 500 milhões no ano passado e a Suzano Papel e Celulose, outros US$ 500 milhões neste ano.

"O volume tímido é resultado de um enorme desconhecimento do mercado", diz Linda Murasawa, superintendente de sustentabilidade do Santander, que participou das duas operações. Para a Suzano, conta Marcelo Bacci, diretor­executivo de Finanças e Relações com Investidores, a emissão do green bond foi um passo natural. "Como empresa de recursos naturais que tem a sustentabilidade como um dos pilares do negócio, não precisamos adotar novos procedimentos, o que permitiu obter a certificação para emitir", diz.

O executivo afirma que, em termos financeiros, por ora não há vantagens. Para ele, o selo verde é um certificado de excelência na área de sustentabilidade que traz mais um benefício de imagem. "Não verificamos redução de custo, mas acreditamos que isso venha a acontecer em um futuro próximo", diz. 

Bacci destaca que há uma tendência entre os investidores de dedicarem cada vez mais recursos a ativos verdes, a começar pelas grandes gestoras globais que já possuem fundos dedicados. Segundo ele, a emissão da Suzano atraiu novos investidores, mas ainda não é um número relevante. Para Suzanne Buchta, diretora para o segmento de green bonds do Bank of America Merrill Lynch para as Américas e Ásia, o green bond é uma oportunidade de a empresa diversificar sua base de investidores. "Nos últimos dois anos, muitos investidores começaram fundos de green bonds, e mesmo os que não têm veículos específicos, quando podem, têm optado por esses títulos." A executiva diz ainda que há muitas instituições buscando transformar riscos ambientais em oportunidades e o green bond pode tornar este exercício mais fácil. Além disso, afirma, a emissão de um título verde é uma oportunidade de a empresa mostrar para o investidor como está lidando com os riscos ambientais. Para Linda, do Santander, o green bond é uma forma de a empresa tornar tangíveis suas práticas socioambientais.

Suzanne, do BofA, afirma que não deve haver diferença nas taxas pagas por um mesmo emissor em um título tradicional e em um green bond. O risco para o investidor é o do emissor, portanto, o retorno deve ser o mesmo, diz. 

Ela pondera, contudo, que o emissor pode usar o argumento de que, ao emitir um green bond, está lidando com os riscos ambientais, o que poderia levar a uma avaliação melhor do risco da companhia em relação aos seus pares.

O mercado global de títulos verdes, que nasceu em 2007, alcançou um estoque de US$ 152 bilhões no fim de setembro, segundo o BofA. Só neste ano, as emissões foram de US$ 56 bilhões, dos quais US$ 17,5 bilhões feitos pela China. O BofA estima um total de emissões entre US$ 80 bilhões e US$ 90 bilhões em green bonds neste ano, podendo alcançar US$ 700 bilhões ao ano em 2030, considerando apenas emissores dos EUA, Europa, China e Japão.

Apesar do crescimento, os títulos verdes são pouco representativos perto do mercado global de títulos de dívida, que neste ano supera US$ 5 trilhões, dos quais cerca de U$ 2 trilhões em títulos com grau de investimento, segundo dados da Dealogic.

Para estimular esse mercado, na visão Suzanne, é preciso ter investimentos em meio ambiente em volumes suficientes para conseguir emitir um bônus verde. Para atrair o investidor, a emissão deve ficar entre US$ 250 milhões e mais de US$ 1 bilhão.

 Outro possível impeditivo para o crescimento, segundo a executiva, seria se o mercado impusesse barreiras grandes demais para a emissão de green bonds de modo que fosse mais fácil financiar o mesmo projeto com um título comum.

O Acordo de Paris, esforço mundial para redução dos impactos climáticos aprovado por mais de 190 países, deve impulsionar o desenvolvimento do mercado de green bonds. "Vão surgir várias oportunidades de investimentos somente por força do cumprimento da meta do clima", afirma Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).

No caso brasileiro, o compromisso para 2030 é reduzir em 43% as emissões de gases­estufa, em relação a 2005. Entre as ações definidas, segundo Elizabeth, está a restauração e o reflorestamento de 12 milhões de hectares de florestas.

 O green bond é um mercado novo, mas tende a ser uma alternativa de crédito importante para financiar esses projetos, destaca. Na semana passada, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lançaram o "Guia para Emissão de Títulos Verdes no Brasil", com o objetivo de apoiar e direcionar potenciais emissores, investidores e instituições financeiras para o desenvolvimento do mercado de green bonds no Brasil.