Inserção do Brasil no novo cenário mundial

Veículo: Folha de S. Paulo

A saída do Reino Unido da União Europeia muda de maneira razoável o cenário internacional.

No comércio exterior, significa a entrada de um novo e forte competidor independente, com PIB de US$ 2,6 trilhões, o equivalente a cerca de 16% do bloco.

Mais do que isso, o Brexit reflete um cenário internacional de mais incertezas, riscos de novas rupturas e dificuldade de a economia global retomar os níveis de crescimento do período pré-crise. Nesse contexto, competitividade é vital!

Assim, é preciso que o nosso país, de preferência articulado com o Mercosul, desenvolva todos os esforços possíveis para não perder espaços e ganhar posições na efervescente conjuntura do comércio mundial.

Nossa inserção nas cadeias globais de valor poderá enfrentar um cenário de fragmentação, não só da União Europeia, mas também de acordos plurilaterais e bilaterais entre as nações e blocos.

Os cerca de 60 milhões de refugiados de guerras e flagelos humanos, em especial do Oriente Médio e da África, a crescente ameaça do terrorismo e o prolongado baixo crescimento da economia mundial fazem recrudescer sentimentos nacionalistas e separatistas, que criam incertezas quanto à economia internacional, no futuro de curto, médio e no de longo prazo.

Mesmo nações liberais como os Estados Unidos têm candidatos à Presidência com discursos xenófobos e contrários a novos acordos de comércio.

Nesse cenário, é preciso estar preparado para o pior para tentar conseguir o melhor. Ou seja, o Brasil precisa multiplicar sua capacidade sistêmica, trabalhar para que o Mercosul seja uma vantagem e não um empecilho e se inserir sem submissão no processo de globalização, cujos cenários são incertos, mas que segue sendo inexorável.

Assim, o país precisa de um eficaz plano de voo para ser vitorioso num ambiente mundial turbulento e pouco favorável.

De imediato, nossas principais lições de casa são baixar juros e impostos, ter um câmbio menos volátil e mais equilibrado, melhorar a segurança jurídica, reduzir a burocracia, restabelecer o equilíbrio fiscal do Estado e realizar as tão reivindicadas e sempre adiadas reformas tributária, previdenciária e trabalhista, para desonerar a produção e estimular investimentos produtivos.

Em função de opções equivocadas feitas nos últimos anos, estamos chegando atrasados no contexto da globalização, mas ainda em tempo de promovermos nossa inserção competitiva regional e internacionalmente. Nesse sentido, em paralelo às políticas públicas, os distintos setores de atividade também têm missões a cumprir.

É o caso da indústria têxtil e de confecção, que está trabalhando com firmeza no tocante ao comércio exterior, por meio do Programa de Internacionalização da Indústria da Moda Brasileira (Texbrasil), que atua no desenvolvimento de estratégias para conquistar o mercado global e já auxiliou cerca de 1.500 marcas a ingressarem na exportação.

A iniciativa é uma parceria da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção e da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Também junto com outra instituição pública, a ABDI, bem como com Senai-Cetiqt, pesquisadores, professores, trabalhadores empregados e trabalhadores empregadores, a Abit desenvolveu o projeto Têxtil 2030, com as visões estratégicas da cadeia produtiva de têxteis e confeccionados para os próximos 15 anos, com ênfase na produtividade, competitividade e inovação.

O Brasil precisa criar um ambiente cada vez mais amigável para os negócios. Seremos mais competitivos à medida que as empresas estiverem preparadas para a concorrência global e o governo eliminar os entraves que reduzem nossa eficácia e aumentam nossos custos em relação aos demais países.

Nossa integração mundial é necessária, mas com diferenciais competitivos que a tornem indutora do desenvolvimento e da retomada do crescimento econômico.

Como vantagem em relação à maioria de nossos concorrentes, temos capacidade de diálogo com todos os povos, por nossa pluralidade, tolerância e abençoada diversidade étnica, cultural e religiosa.

Com isso, conseguimos dialogar com todas as sociedades e temos potencial para bons acordos pluri e bilaterais com as distintas nações.

Portanto, é importante fazermos os ajustes necessários e termos um projeto de país para nos tornarmos, com soberania, um dos grandes players da nova economia global.

FERNANDO VALENTE PIMENTEL é é diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit)