Leitura do discurso de Ilan nos EUA foi errada

Veículo: Valor Economico 

Seção: Finanças 

O discurso do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, na sexta­feira em Washington, não pretendeu ser diferente do pronunciamento que ele fez na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, no dia 4, terça feira. A leitura do mercado, no entanto, foi distinta e isso afetou as expectativas em relação à próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Quando Ilan falou, na CAE, que não tinha compromisso com um cronograma de flexibilização da taxa de juros, o mercado passou a apostar mais em um corte de apenas 0,25 ponto percentual na Selic no dia 19, para 14% ao ano. 

As palavras que mais chamaram a atenção na fala do presidente do BC, em evento na Câmara de Comércio Brasil­Estados Unidos, em Washington, foram que a inflação está "na direção correta" ­ o IPCA de setembro foi de somente 0,08% ­ e que os esforços fiscais do governo "começaram bem e confortam o BC". O mercado voltou a centrar suas apostas em um corte mais acentuado dos juros, de 0,5 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Uma fonte bastante familiarizada com a linguagem do Banco Central deu um valioso conselho: a comunicação deste Banco Central é substancialmente diferente da do BC de Alexandre Tombini. "A leitura, agora, não deve se ater a frases. Ela deve ser uma leitura mais holística". Ou seja, uma frase aqui, outra ali, não retrata o todo.

Fontes do governo ressaltaram, nos últimos dias, a preocupação com a rapidez com que os mercados estão comprando a redução dos juros, montando suas posições e mexendo nos preços dos ativos. A queda do IPCA em setembro para um patamar abaixo das expectativas reforçou o ânimo em relação à flexibilização mais veloz e acentuada. A inflação em doze meses caiu para 8,48% (era de 8,97% em agosto) e para 5,51% no ano. 

Continuam valendo as três premissas que o Banco Central destacou na ata da última reunião do Copom e no recente relatório de inflação: que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja limitada; que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada; e que ocorra redução da incerteza sobre a aprovação e a implementação dos ajustes necessários na economia. Quanto às medidas fiscais, há uma grande confiança do governo na votação da PEC 241 ­ que estabelece um teto para o aumento do gasto público ­ nesta semana e na sua aprovação com folga pelo plenário da Câmara. Ilan tem reiterado, e repetiu na fala de sexta feira, que a velocidade de queda do IPCA é incerta.