Relatório de inflação pode indicar corte de juro

Veículo: Valor Economico 

Seção: Finanças 

Os juros futuros tiveram ligeiro ajuste ontem, após a forte queda na semana passada, com os investidores ampliando as apostas em um corte da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em outubro. O mercado aguarda a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) hoje, que deve trazer novas sinalizações sobre a política monetária. Ontem, a taxa do contrato de juros DI para janeiro de 2018 caiu de 12,23% para 12,22%. O mercado de juro reflete 83% de chance de corte de 0,25 ponto da Selic no mês que vem e 17% de queda de 0,5 ponto. 

A expectativa do mercado é que o RTI corrobore a aposta em corte de juros ao apresentar projeções de inflação abaixo da meta, de 4,5%, para os primeiros trimestres de 2018. "Não é que a projeção para 2017 deixe de ser importante, mas ela passa a ser vista como um caminho para 2018", diz Solange Srour, economista­chefe da ARX Investimentos. A grande questão é se o BC manterá o comprometimento em buscar o centro da meta em 2017 ou ele dará mais ênfase ao horizonte relevante para a política monetária, o que incluiria 2018. "O documento trará projeções mais favoráveis para a inflação nos próximos trimestres, o que reforçará a expectativa de corte da Selic em outubro. Entretanto, a trajetória favorável não indicará possibilidade de início ousado para este ciclo. Desta maneira, a redução de 0,25 ponto da Selic seria a decisão mais indicada", diz Jankiel Santos, economista­chefe do Haitong Brasil. 

Já se o BC mantiver o compromisso em buscar o centro da meta em 2017 pode dar força à leitura de que o BC vai aguardar mais um pouco para iniciar a flexibilização monetária. "Acho que o BC vai se comprometer com 2017 e, com isso, outubro estaria muito cedo para começar a afrouxar a política monetária. Ainda temos que aguardar um avanço mais concreto no lado fiscal", diz Luciano Rostagno, estrategista­chefe do Banco Mizuho do Brasil. Solange explica que as decisões de política monetária influenciam mais a inflação em um período de 12 ou 18 meses à frente, uma vez que a ação do BC afeta a atividade para depois atingir os preços, o que leva um tempo para se concretizar. "O modelo é sempre reestimável e, daqui para frente, o efeito se perceberá mais em 2018." 

Para o diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, se o BC retirar a menção "em particular" referente ao alcance da meta em 2017, ele não estará se comprometendo com uma data específica e pode cortar a taxa de juros gradualmente uma vez que a inflação para 2018 está abaixo da meta. O Itaú Unibanco estima que a projeção para o IPCA em 2017 fique em 4,5% no cenário de referência do BC ante 4,7% do RTI anterior. Já no cenário de mercado, o banco prevê inflação de 5,1% para 2017, abaixo do 5,5% no RTI anterior. Para o terceiro trimestre de 2018, o Itaú prevê o IPCA em 3,9% nocenário de referência do BC e em 4,8% no cenário de mercado. "Em linha com o discurso recente do presidente do BC, acreditamos que o RTI indicará que o horizonte relevante das ações de política monetária não é estático e se desloca com o tempo, consistente com uma gradual migração do foco de atuação de 2017 para 2018", diz o banco. O Itaú vê corte de 0,25 ponto na Selic em outubro. 

Pesquisa Focus divulgada ontem mostrou queda na mediana das expectativas para o IPCA, que caiu de 5,12% para 5,07% em 2017. A mediana para 2018 já aponta inflação na meta em 4,5%. Para Solange, o BC vai deixar aberta a possibilidade cortar os juros em outubro, a depender da evolução da agenda fiscal, tema que pode ser abordado no RTI. 

Os analistas esperam que o BC repita a mensagem da ata de agosto e reforce que a flexibilização da política monetária depende de três fatores: que a persistência de choques nos preços de alimentos seja limitada, que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade (ou seja, os serviços) apresentem desinflação em velocidade adequada e que diminua a incerteza em relação ao ajuste fiscal. Nesse sentido, será importante ver os comentários do diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana, sobre o RTI.