Inflação sobe e eleva pressão por ajuste na economia

Veículo: Folha de S. Paulo

Seção: Mercado

O feijão e agora o leite estão puxando para cima o custo de vida, mantendo a inflação em um patamar elevado apesar do país enfrentar a pior recessão em 25 anos, uma das piores da história.

Segundo informou o IBGE nesta quarta-feira (10), a inflação brasileira acelerou para 8,74% no ano encerrado em julho, um retrato pior do que esperavam analistas.

Eles preveem que os preços vão ceder neste segundo semestre. Mas os alimentos em alta complicam o quadro, o que tem resultado na política do Banco Central para definir a taxa de juros.

Com o aumento do desemprego, a expectativa é que fique mais difícil aumentar preços. Além disso, o dólar recuou neste ano, baixando preços de importados e produtos vendidos pelo Brasil no exterior, como soja e carne.

Segundo analistas, os preços dos serviços vêm subindo menos desde o fim do ano passado, como reflexo da recessão. Mas a inflação não cede devido a choques — considerados temporários — nos preços dos alimentos.

Marcelo Kfoury, superintendente do departamento econômico do Citibank, ressalta que 70% da inflação de julho foi ocasionada pela alta de alimentos. "Mas com as commodities caindo [matérias-primas vendidas no exterior] e com o dólar em queda, é esperado que os preços comecem a mostrar moderação após esse choque."

A expectativa dos economistas é que a inflação recue gradualmente até o fim do ano. Nos cálculos de Elson Teles, do Itaú Unibanco, o índice de preços oficial deve voltar ao limite do intervalo de tolerância do BC (abaixo de 6,5%) no início de 2017.

Isso permitiria que o BC seguisse o script traçado pelos analistas, cortando os juros entre outubro e novembro. A queda da taxa é importante para reduzir as despesas de empresas e consumidores com dívidas, o que viabilizaria uma retomada do crédito e do consumo que reativariam a economia.

O BC, porém, tem atribuído parte da responsabilidade à política fiscal do governo, que promete controlar o aumento de suas despesas. Os gastos públicos são combustível para a inflação e, sem isso, o BC aperta mais o setor privado para que os preços não subam.

Ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, sócio da consultoria Tendências, diz que o mercado ainda tem dúvidas sobre a capacidade do governo de entregar o pacote de medidas para controlar seus gastos, que incluem a fixação de um teto para as despesas públicas e uma reforma da previdência.

"O governo deu indicações de que fará isso, mas quando essa agenda chega ao Congresso parece que se dilui", afirmou, referindo-se ao recuo do governo no projeto que travaria por dois anos os reajustes do funcionalismo dos Estados. "Vemos isso com alguma preocupação."

Loyola observa que a queda de 21% do dólar neste ano está relacionada à expectativa de investidores de que o governo aprovará as medidas necessárias para controlar gastos. Se isso não ocorrer, a moeda poderá voltar a subir, o que aceleraria a inflação e impediria a queda dos juros, o que tem potencial de abortar a reativação econômica.

"O importante é baixar juros de maneira sustentável e isso não depende apenas da vontade da equipe econômica, depende também do [presidente interino] Michel Temer e dos outros Poderes."

"Ninguém é ingênuo de achar que as coisas se resolverão rapidamente, mas com o país do jeito que está é preciso que todos se convençam de que precisamos mostrar resultados", completa.