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Dólar fraco derruba rentabilidade de exportação

Veículo: Valor

Seção: Economia

O dólar mais barato derrubou a rentabilidade das exportações da indústria de transformação do país no segundo trimestre. Entre abril e junho, os ganhos do setor com as vendas ao exterior encolheram 6,4% na comparação com o segundo trimestre de 2015, período em que a rentabilidade dos embarques cresceu expressivos 11,6%, conforme dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

O real menos competitivo ­ e a expectativa de que ele valorize ainda mais em 2017 ­ tem levado algumas empresas a rever o horizonte dos contratos que estão sendo negociados. Em setores como o calçadista, fabricantes já cancelam viagens de prospecção de novos clientes. Para especialistas, o novo nível do câmbio, mais próximo de R$ 3,20 por dólar, pode ter impacto negativo sobre o ajuste acelerado que o país vinha fazendo em suas contas externas e coloca em dúvida as expectativas de superávit para a balança comercial em 2017, atualmente em US$ 50 bilhões, segundo as estimativas colhidas pelo boletim Focus, do Banco Central.

Entre 23 segmentos industriais acompanhados pela Funcex, apenas três registraram rentabilidade superior à apurada entre abril e junho do ano passado. Ainda no primeiro trimestre deste ano, 18 entre 23 tinham resultados melhores do que no mesmo intervalo do ano anterior. Além da valorização cambial, os ganhos menores também são reflexo da redução dos preços dos produtos exportados ­ uma estratégia usada pelas empresas para manter os clientes lá fora. "Com esse novo patamar do câmbio, a margem para reduzir preços vai ficar cada vez menor", pondera André Mitidieri, economista da Funcex. Junho, ele destaca, foi o primeiro mês em 2016 a apurar retração no volume de exportações, de 7,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

Com o desempenho, o valor dos produtos vendidos ao exterior no primeiro semestre diminuiu 4,3% em relação a 2015, após retração de 1,6% no acumulado até maio. No intervalo, o preço dos produtos importados cedeu 14,8% ­ uma queda mais branda do que a observada entre janeiro e junho, 16,2% ­ e o "quantum" avançou 11,9% ­ depois de aumentar 17,1% nos cinco primeiros meses.

A tendência para o segundo semestre, ele afirma, é um quadro mais parecido com o de junho. Em sua avaliação, o impacto negativo da valorização da moeda pode aparecer já nos indicadores deste ano, com superávit da balança menor do que os US$ 50 bilhões apontados pelas projeções colhidas pelo Focus. "O impacto [do câmbio] varia entre os setores, alguns têm uma margem maior para reduzir preço". Diante da expectativa de que o dólar fique ainda mais barato no próximo ano, as empresas do setor têxtil estão encurtando o horizonte de planejamento e fechando contratos mais curtos, afirma Fernando Pimentel. diretorsuperintendente da Abit, entidade que representa a indústria. "A competitividade não pode depender apenas do câmbio, mas ele é uma variável­chave."

O cenário, afirma Pimentel, é ainda mais desafiador porque nenhuma das variáveis chega a compensar as perdas impostas pelo dólar mais barato. "Os juros jogam contra, a inflação, o mercado internacional", diz. A situação só não é pior, afirma o presidente­executivo da Abicalçados, Heitor Klein, que representa os calçadistas, porque a debilidade do mercado doméstico não tem permitido um aumento no volume de importados ­ que em anos anteriores tomaram espaço da indústria nacional no mercado interno. As empresas que fecharam contrato durante a temporada de feiras no hemisfério norte, em junho, com o câmbio médio a R$ 3,50 por dólar, estão tendo de espremer as margens para cumprir os contratos, afirma.

Algumas já cancelaram a participação nos eventos do segundo semestre. Com o câmbio médio a R$ 3,50, a entidade ainda apostava em crescimento das exportações de calçados. "Agora vai ser uma façanha se conseguirmos empatar com 2015", ressalta. Para Mauro Rochlin, professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), se for mantido o cenário atual, a valorização da moeda deve promover uma onda de revisões para baixo das estimativas para a balança de 2017, que hoje indicam superávit de US$ 50 bilhões. "O ajuste externo foi feito com base no câmbio e na recessão. Da mesma forma que ele foi rapidamente construído, pode ser rapidamente desfeito", avalia.

De um lado, a taxa de juros alta, atraente para o capital especulativo, e a melhora do ambiente político devem provocar um fluxo de capitais maior para o país e pressionar por uma valorização adicional do real. A atividade, por sua vez, deve ensaiar recuperação, levando o Produto Interno Bruto (PIB) para campo positivo após dois anos consecutivos de queda.



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