Estamos no "Fundo do Poço". E agora?

Veículo: Valor Economico 

Seção:  Opinião 

Tudo indica que a economia brasileira atingiu o "fundo do poço" no segundo trimestre deste ano, depois de queda livre nos dois últimos anos. Os estoques já se ajustaram. A taxa de câmbio, particularmente, no primeiro trimestre, estava estimulando as exportações e indicadores de expectativas mostram também que está havendo uma reversão, tornando­se positivos. Depois de tamanha queda na produção e emprego seria razoável esperar uma rápida recuperação, pois a simples recuperação da capacidade ociosa poderia propiciar um círculo virtuoso. Simples efeito dos estoques voltarem ao nível normal, como já ocorreu, leva as empresas a aumentarem a produção ajustando­se à demanda, antes atendida com queda nos estoques. As demissões perdem ritmo; aos poucos volta o consumo e em seguida a retomada do nível de emprego, certamente com custo unitário menor para as empresas, em função dos ajustes feitos durante a recessão, e portanto melhor margem de lucro, gerando­se assim um círculo virtuoso. Será que isto vai se concretizar? Ainda é uma questão aberta e pairam algumas dúvidas. 

agosto, quando se espera que o Senado encerrará a interinidade do presidente Michel Temer. Encerrado esse período, o voto de confiança dado pelo mercado a Temer e sua equipe econômica passará certamente, a ser avaliado de forma menos indulgente e dependerá de medidas concretas, especialmente estruturais, e de transformar em novas regras institucionais o teto de gastos e a reforma previdenciária. Se essas reformas estruturais não acontecerem, a leitura será de um governo fraco, já que até agora tem cedido às pressões políticas. Sem as reformas estruturais mudando institucionalmente a trajetória efetiva de crescimento da despesa pública, a dívida pública continuará crescendo e em poucos anos ultrapassaremos 80% do PIB, que parece ser o limite convencional para uma economia como a brasileira. Ultrapassando esse nível entraremos numa zona de alto risco e de grande instabilidade. 

leniente na política fiscal e tão duro com a manutenção da taxa nominal de juros tão elevada, num contexto de inflação declinante e elevadíssimo nível de desemprego. Poderia muito bem ter mudado o mix de política macroeconômica, com medidas mais restritivas na área fiscal, recompondo mais rapidamente a confiança e a credibilidade, compensando com política monetária mais flexível. No Brasil, como não há uma relação direta entre taxa de juros e inflação, uma política fiscal restritiva manteria a pressão antiinflacionária de alto desemprego e a demanda agregada gerada pelo governo restrita. Em compensação, o setor privado seria aliviado com taxa de juros menor e oferta de crédito mais flexível. A terceira dúvida refere­se à política cambial. Hoje ninguém duvida que a enorme instabilidade e a tendência a sobreapreciação da taxa de câmbio no Brasil trouxeram enormes prejuízos à indústria nacional. A taxa de câmbio atingiu, no início deste ano, um nível que recompunha a competitividade e permitiu o início da recuperação da indústria de transformação, através o aumento nas exportações. Foi exatamente este mecanismo que interrompeu a queda livre da economia brasileira e a aparente estabilização. Infelizmente, o regime cambial continua o mesmo que permitiu a sopreapreciação e enorme instabilidade e já começa a colocar em dúvida a recuperação da economia brasileira. Aqui também é necessária uma reforma estrutural de forma que a taxa de câmbio seja mais estável, reduzindo a enorme incerteza a que está sujeito o setor de tradables no Brasil. A flutuação e uma oscilação saudável deveria ocorrer em torno de uma tendência determinada pelos fundamentos da economia brasileira e não sujeita a uma instablidade devido a especulação financeira e humores do mercado financeiro internacional.

O tempo que resta para a equipe econômica executar as reformas estruturais nas instituições fiscais, reduzir as taxas de juros e dar um horizonte mais estável para a taxa de câmbio está se encurtando. A leve melhoria nas expectativas se deve mais ao voto de confiança dado pelo mercado ao impeachment da presidente Dilma, do que às medidas efetivas tomadas pelo presidente interino. É preciso lembrar que dois anos de forte recessão provocaram enormes estragos no setor empresarial, que estava já bastante alavancado. A maior parte das empresas que não foram à falência ou recuperação judicial, já queimaram suas reservas de caixa e estão procurando se desfazer de ativos. Num país com taxas de juros das mais elevadas do mundo, crédito escasso pode facilmente abortar o processo de recuperação econômica que mal se iniciou.

Yoshiaki Nakano, com mestrado e doutorado na Cornell University, é professor e diretor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP) e escreve mensalmente neste espaço.