Índices de confiança projetam estabilidade maior

Veículo: Valor Economico 

Seção: Brasil 

Os economistas podem não ser unânimes na avaliação de que a recessão já atingiu o fundo do poço, mas concordam que a inflexão dos indicadores de confiança já permite vislumbrar um horizonte de estabilidade, ainda que haja um alçapão ou outro no meio de caminho. Acompanhado de perto pelos especialistas, o Índice de Confiança da Indústria (ICI), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre­FGV), chegou ao ponto mais baixo em setembro de 2015, 74,1 pontos, voltando a 83,4 no mês passado. Quanto mais abaixo de cem, nível ultrapassado pela última vez em setembro de 2013, mais pessimistas estão os empresários. Não apenas no Brasil, os índices de confiança têm sido usados como uma espécie de termômetro da atividade, dentro dos esforços para antecipar o início e o fim de períodos de retração e de crescimento, lembra o superintendente­adjunto para ciclos econômicos do Ibre­FGV, Aloisio Campelo, que integra a equipe do setor de sondagens desde 2003. 

Nas recessões desde o Plano Real, a virada no índice antecipou a retomada da economia. Nenhuma dessas crises, entretanto, foi tão longa como tem sido a atual, diz Campelo. A melhora atual do indicador começou com a redução nos níveis de estoque, mas hoje é puxada principalmente pelas expectativas. Assim, o economista avalia que a manutenção da incerteza em nível ainda elevado, com possíveis instabilidades no cenário político e novos desdobramentos da Lava­Jato são os principais riscos ao ciclo de recuperação da confiança e do crescimento. A seguir os principais trechos da conversa do economista com o Valor:

Pior desde a era Collor

A confiança da indústria caiu a 74,1 pontos em 2015, o mais baixo nível desde o começo da série histórica, em 95, e possivelmente o pior desde os planos Collor 1 e 2. A comparação não é perfeita, já que a série nova tem algumas diferenças em relação à que o Ibre começou a divulgar em 1966. No início dos anos 90, a confiança chegou a níveis mais baixos, mas não se manteve nessas mínimas por tanto tempo quanto recentemente. Até o ano passado havia um pessimismo exagerado, que acabou transformando alguns temores em "profecias autorrealizáveis". O nível atual da confiança parece mais calibrado com a realidade. 

Recuperação

De setembro do ano passado até o início de 2016, a redução dos níveis de estoques puxou a retomada. O indicador que acompanha os inventários chegou a 109,8 em junho, distante do pico de 120,6 registrado em agosto de 2015 e mais próximo daquele que sinaliza uma normalização (por volta de 105). O nível já é considerado equilibrado nos ramos de bens intermediários ­ que se beneficia do processo de substituição de importações proporcionado pelo real desvalorizado ­ e no de bens não duráveis. O segmento de bens de capital está próximo desse nível, enquanto as indústrias de bens duráveis, com destaque para automotiva e de insumos para construção, ainda relatam estoques acima do ideal. 

Efeito lua ­de­ mel

Nos últimos três meses, contudo, as expectativas foram o principal responsável pela recuperação do índice. Em abril, maio e junho, responderam por 84% da melhora. Parte disso é o "efeito lua­de­mel" do início do mandato do presidente interino, o voto de confiança dado pelo mercado e pelas empresas à nova gestão, que se comprometeu a reequilibrar as contas do governo e a realizar reformas importantes, como a da Previdência. É por isso que o cenário político será decisivo para o desempenho da confiança nos próximos meses. 

Incerteza

A redução da incerteza vai ser chave. Nosso indicador segue persistentemente baixo e mostra que os empresários ainda não têm clareza do cenário no médio prazo, uma condição imprescindível para a retomada dos investimentos. A melhora da confiança nos últimos meses mostra, na verdade, que houve uma redução do pessimismo. Uma parte das empresas deixou de dar respostas negativas na sondagem, mas elas passaram a neutras, e não a favoráveis. O caminho até a recuperação ainda é longo e depende da capacidade do governo de mostrar que vai ser capaz de dar uma solução para o problema fiscal e de avançar na agenda de crescimento, com concessões e parcerias público­privadas. 

Quando agosto chegar

Parte dessas propostas deve sair apenas depois de agosto, quando houver a definição no Senado do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. É possível que Temer esteja segurando algumas medidas mais polêmicas para não se comprometer antes da votação. 

Saída da recessão

A melhora que estamos vendo nos indicadores de atividade tem mais a ver com o ciclo econômico do que com qualquer outra coisa. A retomada ainda depende muito da recuperação da demanda interna e da definição do cenário político, com o risco da Lava­Jato. Nas cinco recessões anteriores a essa, desde o início do Plano Real, a reversão da queda no índice de confiança da indústria foi seguida pela melhora nas taxas de crescimento. Nenhuma delas, contudo, se estendeu tanto quanto esta. No começo dos anos 90, e em outros períodos de recessão mais longos, a confiança chegou a recuar novamente e depois subir. Nesse tipo de ciclo, que muitas vezes está relacionado a problemas estruturais, existem riscos maiores de acelerações e desacelerações até a retomada.