O efeito retrovisor no mundo dos investimentos

Veículo: Valor Economico 

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Ao dirigir um automóvel, um bom motorista deve manter o foco na pista à sua frente e recorrer aos espelhos retrovisores externos para mapear preventivamente o que se passa atrás do veículo e nas suas laterais. O uso dos espelhos retrovisores contribui para uma direção mais segura e tranquila. Dito isto, é claro que não há como se imaginar dirigir um veículo automotor olhando­se apenas pelos espelhos retrovisores. Com o universo dos fundos de investimentos, a situação não deveria ser muito diferente. "Olhar somente para trás", ainda que seja algo muito útil e informativo no processo de seleção de gestores e de fundos de investimentos, muitas das vezes pode induzir a equívocos importantes. 

Não há dúvidas de que a análise retrospectiva do desempenho dos fundos de investimentos é uma ferramenta importante a ser adotada previamente à alocação de recursos de um investidor, seja para decidir em que classes de fundos/estratégias aplicar, seja para selecionar aqueles gestores que possuam a melhor capacidade de entregar uma performance satisfatória, compatível com o nível de risco que se pretende correr e consistente ao longo do tempo. Existem estudos acadêmicos e diversas evidências empíricas que indicam haver um alto grau de correlação entre o comportamento de aplicações e resgates de recursos em fundos de investimentos, com a rentabilidade pregressa apresentada. Na indústria de fundos brasileira, podemos citar alguns exemplos emblemáticos: os fundos cambiais no ano de 2015, por conta da valorização do dólar de mais de 50% no período, apresentaram captação líquida positiva em torno de R$ 1,4 bilhão, quase 50% do estoque total de recursos aplicados nesses fundos no começo daquele ano. Somente em setembro de 2015, a captação alcançou cerca de R$ 500 milhões, num cenário em que a cotação média do dólar já girava em torno de R$ 3,90 (muito próxima das máximas alcançadas pela moeda americana nessa época). 

Outro exemplo marcante diz respeito aos fundos de Renda Fixa Índices, atrelados ao comportamento da inflação, que em 2012, quando a taxa básica de juros atingiu seu nível mais baixo da história recente, 7,25%, apresentaram uma rentabilidade média de mais de 21%. Naquele ano, a captação líquida nessa classe de fundo superou os R$ 10 bilhões. Tal comportamento dos investidores prevaleceu até o primeiro trimestre de 2013, porém, logo em seguida, com os retornos dos ativos que compunham as carteiras desses fundos sofrendo os impactos da reversão na trajetória dos juros, vieram as rentabilidades negativas, o que resultou em resgates líquidos de mais de R$ 18 bilhões ao final do ano de 2013. Os exemplos são vários. 

Não é difícil constatar pelos exemplos acima que o peso excessivo na análise de performance passada para tomada de decisão de investimentos acaba potencializando "trocadas de pé" clássicas, do tipo comprar na alta e vender na baixa, com claros prejuízos para os retornos auferidos pelos investidores. A cultura de liquidez diária vigente em boa parte da indústria de fundos brasileira acaba também por facilitar entradas e saídas de investimentos muitas vezes precipitadas e mais sujeitas às armadilhas comportamentais. 

Os investidores menos sofisticados são os mais suscetíveis aos equívocos decisórios. Em princípio, investidores mais qualificados (institucionais, clientes de private banking etc.) têm mais facilidade de acesso à informação e maior nível de conhecimento, o que faz com que outros fatores importantes sejam ponderados na hora de tomar suas decisões de investimento. Um bom entendimento da qualificação da empresa gestora dos fundos de investimentos, sua equipe de profissionais, infraestrutura, tempo de atuação no mercado dos gestores de carteira e da empresa gestora, consistência na performance, reputação no mercado, estrutura de custos dos fundos, dentre outros fatores, são indicadores de que seus recursos estarão em boas mãos. Compreender o contexto macroeconômico vigente e seu provável comportamento futuro também é peça chave na hora da tomada de decisões. 

Em suma, acesso à informação e conhecimento são fundamentais. As novas Instruções CVM 555 e 558 trazem, entre outros pontos, a obrigatoriedade de divulgação de alguns documentos importantes sobre a ótica de disponibilização de informações aos investidores, tais como: o formulário de referência, aonde serão discriminados uma série de dados sobre a empresa e os profissionais responsáveis pela gestão dos fundos de investimento, e a lâmina de informações essenciais dos fundos de investimento que traz informações relevantes sobre os fundos em que se pretende investir. Concluindo, não há dúvidas de que uma boa série histórica de desempenho de um fundo de investimentos é um indicador importante (talvez o mais importante), na hora de se avaliar onde aplicar seus recursos. Entretanto, trabalhar apenas com essa ferramenta colocará sempre o investidor na condição de "mais um" no meio dos movimentos de manada. Usar o retrovisor com sabedoria, mas mantendo o foco na estrada à frente tornará a viagem mais segura e agradável até o seu destino final. 

Carlos José da Costa André é diretor­executivo da BB DTVM