Crédito a empresa sinaliza estabilização (Valor Econômico)

Veículo:NTW Contabilidade

Seção: Notícias 

Após os dois piores anos pelo menos desde o início da década de 1990, o crédito corporativo começa a dar sinais de estabilização. No quadro mais geral, a demanda por empréstimos das companhias ainda patina. Em maio, o crédito a pessoas jurídicas caiu 0,1%, puxado por capital de giro. Segundo o Banco Central, desde 2009, auge da crise financeira, não se via recuo mensal do crédito livre às empresas.

Ao mesmo tempo, pequenas empresas, grupo que funciona como espécie de indicador antecedente dos movimentos do setor, aumentam a procura por crédito, o que também pode ser visto entre as exportadoras. Outro sinal animador é que os principais índices de confiança parecem que finalmente alcançaram o fundo do poço. Ainda é cedo para falar em uma retomada firme, dizem especialistas, mas não há exagero em dizer que, como um todo, o crédito corporativo finalmente alcançou um ponto de inflexão.

Em maio, a procura das empresas por crédito subiu 12% em relação a abril, segundo a Serasa Experian, avançando 11,1% se comparada a igual mês do ano passado, puxada especialmente por companhias de menor porte. No acompanhamento da Serasa, cerca de 90% das consultas são de micro e pequenas empresas.

Os sinais, contudo, são mistos. De janeiro a maio, ainda há queda de 4,6% na procura por crédito entre as empresas. O desempenho é pouco animador especialmente entre as grandes, cuja procura cai 12,6% no período. Olhando os números mais de perto, um ponto chama a atenção: essa queda é decrescente. Além disso, outros dois indicadores importantes de confiança, cujo foco são companhias de maior porte, se recuperam.

Na prévia de junho, o indicador de confiança da indústria da transformação da FGV alcançou 81,3 pontos, maior nível desde fevereiro de 2015. Já o índice da Confederação Nacional da Indústria (CNI) subiu pelo segundo mês consecutivo, chegando ao maior patamar desde novembro de 2014: 45,7 pontos em junho, ainda abaixo de 50 pontos, o que ainda indica pessimismo, embora menor.

“É uma tendência que começa a se firmar e isso impacta a procura por crédito. O empresário confiante começa a desengavetar algumas coisas”, diz Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. Para ele, antes de uma melhora mais consistente, a procura por crédito deve enfrentar oscilações, com uma retomada mais firme no fim do ano. “O importante agora é que quebramos uma sequência ininterrupta no vermelho.”

Mesmo eventos negativos, como o pedido de recuperação judicial da Oi, não devem alterar um cenário que é de “reversão de expectativas”, diz João Augusto Salles, da consultoria Lopes Filho. “Os bancos não devem reter mais crédito por conta de Oi porque isso já era esperado”, diz.

Do lado dos bancos, a percepção é que continuar elevando os spreads no ritmo que vinha sendo feito em um cenário ainda desolador para o crédito corporativo deixa de ser considerado uma opção. Segundo executivos de bancos, os spreads aumentaram brutalmente ao longo do último ano, mas, de fevereiro pra cá, essa elevação não foi acompanhada pela alta do apetite dos bancos em conceder mais crédito. Dados do BC apontam leve alta de 0,8 ponto do spread médio à pessoa jurídica no trimestre. Em 12 meses, a alta é de 4 pontos.

As empresas por sua vez estão bastante endividadas, especialmente em razão de margens reduzidas. A inadimplência preocupa mais nas pequenas e médias, mas as grandes também enfrentam obstáculos. Mesmo empresas de bom perfil de crédito, que jamais tiveram dificuldade de captar, não enfrentam dificuldade de rolar suas dívidas, mas os custos estão muito mais caros do que no passado. Segundo o BC, entre empresas, no crédito livre, a inadimplência subiu 0,3 ponto e maio para 5,4%.

Para uma fonte de um banco de grande porte, as instituições financeiras se anteciparam ao fim do ciclo de crédito na pessoa física e esse é o motivo de não haver uma explosão da inadimplência no setor. No crédito corporativo, porém, é mais difícil cortar crédito quando se tem uma espécie de parceria com o cliente. “Ano passado e este aqui serão os piores que minha geração de gestores de carteira de crédito vão ver no segmento corporate.”

Mas os sinais de recuperação se apresentam. Outra fonte de um grande banco diz que tudo ligado ao mercado externo tem “potencialidades a captar”, embora o setor de bens duráveis, que engloba automóveis e eletroeletrônicos, ainda precise de menos incertezas e financiamento para reagir. “O cenário de crédito é uma balança com pesos em equilíbrio que ainda precisa se consolidar.”

Para Salles, da Lopes Filho, é possível enxergar alguma reação em máquinas agrícolas e exportações feitas pelas montadoras. Os bancos pequenos e de médio porte, diz ele, já estariam aproveitando a janela deixada pelos grandes para avançar, especialmente em garantias de operações feitas por terceiros. Entre os bancos maiores, avalia, o crédito vai começar a fluir a partir do terceiro trimestre quando a questão política deve estar equacionada.

Um sinal positivo, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Fator, é a leve queda de 0,5 ponto nas taxas de juros a pessoas jurídicas com recursos livres em maio ante abril. Para ele, pode ser um sinal de que os bancos estão conseguindo trocar tomadores, de pior para melhor perfil.

Para Bruno Lavieri, sócio da Consultoria 4E, o mercado de crédito deve parar de piorar não só pela melhora da confiança, ligada à troca de governo, mas também porque o setor está próximo do fundo do poço. “Se isso vai acontecer agora em junho ou nos próximos meses é uma grande pergunta. Mas até o fim deste ano devemos atingir esse ponto de inflexão”, diz ele.

Outra fonte de um banco com forte atuação na área de crédito corporativo avalia que a melhora virá justamente do acesso de emissores brasileiros a crédito externo – o funding de longo prazo de companhias e bancos com necessidade de emitir papéis mais longos.

Para esse executivo, o funding volta porque é muito baixa a alocação global ao risco Brasil e qualquer melhora na economia local ajuda. “Mas não acho que vai acontecer nenhum grande milagre na economia. Não vem crescimento superior a 1%, nem aprovação imediata de reformas necessárias. Mas como todos os grandes alocadores globais estão muito pouco expostos a Brasil, uma pequena melhora já causa maior fluxo, que pode possibilitar melhora de disponibilidade de crédito na economia”, diz. “2016 ainda vai ser um ano de muito sofrimento”, resume.