Varejo sobe 0,5% em abril e estabilização pode estar por vir

Veículo: Valor

Seção: Economia

A alta de 0,5% do volume de vendas do varejo restrito (não inclui veículos e material de construção) entre março e abril, feitos os ajustes sazonais, está longe de apontar reação do setor, avaliam economistas, mas a maior ocorrência de resultados positivos neste ano indica que a estabilização da atividade no comércio está próxima, e pode ocorrer no segundo trimestre. Já no varejo ampliado - que também considera as vendas de automóveis e material de construção e encolheu 1,4% no mesmo período - a perspectiva de melhora é um pouco mais distante, mas também deve ocorrer ainda em 2016.

Na passagem mensal, apenas três dos dez setores analisados na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo IBGE, elevaram suas vendas. A maior influência positiva sobre o varejo restrito veio dos supermercados, cujas vendas cresceram 1%, depois de terem caído 1,4% em março. Em seguida, o volume comercializado nos segmentos de tecidos, vestuário e calçados e outros artigos de uso pessoal e doméstico subiu 3,7 % e 2,8%, nesta ordem.

De janeiro a abril, o comércio restrito acumula retração de 6,9% sobre o primeiro quadrimestre do ano passado, pior desempenho para o período desde o início da série da PMC, em 2001. Apesar da predominância de números ruins, analistas destacam que, na média mensal com ajuste, as vendas restritas estão relativamente paradas desde o início do ano, o que pode ser considerado uma boa notícia, tendo em vista a sequência de oito quedas observada em 2015. A contração de 6,7 % das vendas restritas em relação a abril do ano passado, de acordo com o IBGE, reflete o menor contingente de trabalhadores com carteira assinada, a queda na massa de rendimentos e a taxa de juros mais alta.

Na avaliação da gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, Isabella Nunes, o cenário econômico deste ano está pior que o registrado em abril de 2015. "Há mais gente desempregada e menos trabalhadores com carteira assinada, o que faz com que as famílias saiam menos do orçamento."

A expansão nas vendas restritas em abril não indica recuperação do consumo, que ainda segue prejudicado pela deterioração do mercado de trabalho e do crédito, afirma João Morais, da Tendências Consultoria, mas é um sinal de que o fundo do poço está perto de ser atingido. "O indicador passou a mostrar volatilidade mais forte que o normal. Parece que a queda do índice chegou a um patamar que não será ultrapassado", disse.

É difícil apontar algum fundamento que explique a expansão das vendas restritas, uma vez que a renda segue em queda e o desemprego, em alta, enquanto a inflação de alimentos não cede, pondera Morais. Mesmo assim, ele avalia que há possibilidade de novo aumento do varejo restrito em maio, em linha com a melhora já registrada nos índices de confiança do consumidor. No cenário-base da Tendências, a atividade do comércio terá estabilização no terceiro trimestre e desempenho positivo nos últimos três meses de 2016, mas, levando em conta a alta observada em abril e a diminuição do pessimismo entre os consumidores, o economista não descarta que o segundo trimestre antecipe a estabilidade no varejo.

Para Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, o deflator da PMC, que avançou 9,9% nos últimos 12 meses, evidencia que os preços no varejo ainda estão bastante pressionados, o que impede retomada mais consistente da atividade do comércio. Por outro lado, a maior alternância entre altas e quedas no dado mensal são sinais "um pouco melhores", e apontam que a estabilização do indicador vai ocorrer no terceiro trimestre, afirma ela. "A boa notícia é que, no ano passado, tivemos muitos meses seguidos de queda no varejo e, agora, começamos a ter uma alternância entre altas e baixas", disse a economista, para quem a expansão das vendas restritas em abril representa uma pequena oscilação no dado mensal. Já no segundo semestre, a perda de fôlego da inflação tende a funcionar como um gatilho para o consumo, elevando a renda real disponível e permitindo uma política monetária mais frouxa por parte do Banco Central. A perspectiva de estabilização, no entanto, ainda não é válida para o varejo ampliado, observa Daniel Silva, economista do Modal Asset.

A retração nas vendas de automóveis foi mais forte do que o esperado, diz Silva, e deve continuar prejudicando as vendas ampliadas no primeiro semestre. A partir da segunda metade do ano, é possível que as vendas do setor automotivo revertam a tendência de queda, projeta ele, conforme indica o ajuste de estoques nas fábricas. Segundo o economista do Modal, o consumo das famílias deve voltar ao terreno positivo somente nos últimos três meses do ano, influenciado pelo nível de confiança maior. "Será algo muito moderado", avalia ele, dado que o mercado de trabalho e o crédito continuarão jogando contra a demanda. Já para as vendas restritas, é possível esperar estabilização de abril a junho.

A confiança, concorda Morais, da Tendências, será o principal vetor de elevação, ainda que modesta, das vendas a partir do segundo semestre, mais do que a queda dos juros. "O que está puxando a alta da taxa de juros ao consumidor não é a Selic, mas sim o risco de inadimplência, que seguirá subindo, mesmo que a Selic caia", explica Morais, dado que o quadro geral para a inadimplência é de alta.