No adeus de Tombini, BC mantém Selic

Veículo: Valor Economico

Seção: Finanças 

As duas condições necessárias para se começar um período de corte de juros ainda não foram atingidas, segundo o Comitê de Política Monetária (Copom). Como a inflação em 12 meses segue elevada e as expectativas longe da meta de 4,5%, a decisão do Banco Central (BC) ontem foi manter a Selic nos atuais 14,25% ao ano. A votação foi unânime e sem viés. Essa foi a sétima manutenção consecutiva, período mais longo de estabilidade desde a criação do Copom em 1996. Esta foi a última reunião presidida por Alexandre Tombini, conforme Ilan Goldfajn teve sua indicação confirmada pelo Senado Federal. O comunicado pós decisão foi uma repetição do visto em abril. Assim, Tombini e sua diretoria deixam total espaço para que Ilan e sua equipe assumam a condução da política monetária. O próximo encontro do Copom será em 19 e 20 de julho.

No comunicado, o BC reconhece os avanços na política de combate à inflação, em especial a contenção dos efeitos de segunda ordem dos ajustes de preços relativos que são os administrados e o câmbio. No entanto, aponta que o elevado nível da inflação em 12 meses e as expectativas distantes dos objetivos do regime de metas "não oferecem espaço para a flexibilização da política monetária". De fato, desde o encontro do fim de abril esses dois vetores não apresentaram melhora que justificasse mudança de postura pelo Copom. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, divulgado ontem, ficou em 0,78%, maior leitura para o mês desde 2008. Em 12 meses a taxa avançou de 9,28% para 9,32%, e acumula 4,05% no ano. 

No lado das expectativas, a mediana do Focus aponta IPCA de 7,12% em 2016 e 5,5% em 2017. Inflação de 4,5%, apenas em 2019, já que para 2018, o mercado trabalha com 5%. Por ora, o objetivo declarado da autoridade continua sendo manter a inflação abaixo de 6,5% em 2016 e fazer a convergência para a meta de 4,5% em 2017. Em sua apresentação à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), Ilan disse que o objetivo será cumprir plenamente a meta de inflação, mirando o seu ponto central e que os limites de tolerância estabelecidos serviriam para acomodar choques inesperados na inflação. Ainda de acordo com Ilan, a meta de 4,5% será atingida em horizonte não muito distante. Falta esclarecer, agora, qual seria esse intervalo de tempo. 

desde a reunião de abril, rondando a linha dos 6,6% ao ano. Desde o início do ciclo de aperto em 2013, o juro real fez máxima a 9,6% e mínima de 1,95%. A decisão do Copom de manter a Selic em 14,25% ao ano já era esperada pela maior parte dos analistas econômicos. De acordo com Tatiana Pinheiro, economista do Santander, a redução da taxa básica deve começar a partir de agosto. "O novo presidente do BC, Ilan Goldfajn, é muito interessado nas expectativas de inflação. Se a inflação subir para além de 9,30% [em 12 meses], onde está hoje, é possível que haja um risco para o início do afrouxamento monetário", afirma. A expectativa de Tatiana é que os juros futuros de curto prazo não sofram alterações significativas no pregão de hoje. 

A projeção do Santander é que Selic chegue ao fim do ano em 12,75%. Para 2017, a sua estimativa vai a 10% ao ano. "Ilan se orienta muito pelas expectativas do mercado e vai estar atento à evolução delas", afirma. Para Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, o novo presidente do BC deve ser cauteloso com os sinais adversos mostrados pela inflação. "A nossa estimativa é a de que um corte de juros só deva ocorrer em agosto", diz. Alessandra destaca, no entanto, que a redução do juro primário pode ser postergada caso o BC faça intervenções no câmbio. "O Banco Central pode reverter o estoque de swap e isso pressionaria o câmbio, tendo reflexos para a inflação e retardando o processo de corte de juros", disse. 

As expectativas de inflação fora do centro da meta e a inflação corrente ainda elevada, elementos citados no comunicado do Copom, aumentam as chances de uma postergação de corte de juros, diz o economista da Bozano Investimentos Samuel Kinoshita. Para ele, o primeiro sinal mais claro sobre a política monetária do BC de Ilan Goldfajn virá no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) a ser divulgado no fim deste mês. Kinoshita já não vê corte de juros em julho e mantém, por ora, expectativa de que o ciclo de afrouxamento monetário seja iniciado em agosto. "Mas acho que o perfil de riscos tem apontado para algo mais tarde que isso", afirma. 

"A expectativa de um dólar mais fraco ajuda a conter pressões inflacionárias, mas de qualquer forma as últimas leituras de inflação indicam um cenário menos confortável para os preços", diz. Ele espera corte total de 150 pontosbase até o fim do ano ­ redução de 50 pontos em cada uma das três reuniões entre agosto e novembro. Para Daniel Weeks, da Garde Asset Management, desde a reunião do Copom anterior não houve alteração nas variáveis analisadas pelos diretores do Banco Central. "As expectativas de inflação pararam de melhorar e a inflação corrente ficou pior. Seria natural manter a taxa como está, até porque essa foi a última reunião desta diretoria", disse. 

A avaliação de Weeks é que o Banco Central terá espaço para cortar os juros a partir de outubro. Até lá é possível que medidas econômicas adotadas pelo governo já tenham surtido efeito sobre o déficit fiscal. A única informação concreta que se pode extrair do comunicado do Copom de ontem é que a Selic não será reduzida em julho, diz o sócio­gestor da Modal Asset Management Luiz Eduardo Portella. O gestor mantém a previsão de corte em agosto, mas admite que cresceu a possibilidade de ter de revisar o início do afrouxamento monetário para outubro. 

Tal dúvida advém justamente dos resultados mais altos de inflação divulgados recentemente e sinais ainda iniciais de atividade atingindo o fundo do poço. "Acho que olhando para a frente, o mercado vai discutir corte de juros mais para agosto ou outubro."