Mercado espera detalhes sobre compra de bônus pelo BCE

Veículo: Valor Econômico

Seção: Finanças 

O Banco Central Europeu (BCE) se reúne hoje e o foco de atenção para os investidores não é um possível novo corte de juros ou ampliação do programa de "QE" na região, mas a implementação de medidas anunciadas em março e previstas para entrarem em ação em junho. 

A mais esperada é o início das compras de bônus corporativos não financeiros no programa mais amplo de aquisição de ativos já elegíveis pela autoridade, como títulos públicos (em todas as esferas), títulos hipotecários e "covered bonds". Não se sabe ainda qual será o volume a ser adquirido e como se comportará a liquidez e a alavancagem neste mercado. É o que se espera saber de Mario Draghi, presidente da instituição, hoje. 

De detalhes dessas operações já anunciados pelo BCE, sabe­se que as compras serão realizadas nos mercados primário e secundário; os instrumentos de dívida serão elegíveis para compra desde que preencham todos os critérios de garantias de operações de crédito do Eurosistema; os bônus devem ser denominados em euros e devem ter ao menos rating de grau de investimento "BBB­" ou equivalente; devem ter vencimento mínimo restante de seis meses e uma duração máxima remanescente de 30 anos no momento da compra; e que o emitente seja uma corporação estabelecida na área do euro. 

A expectativa pelo início das compras de bônus privados pelo BCE impulsionou fortemente a emissão por parte de empresas europeias no mercado de crédito nos últimos dois meses. Segundo informação da consultoria Dealogic, quase € 66 bilhões foram emitidos em títulos privados entre abril e maio. 

Mas pairam preocupações sobre potenciais impactos na liquidez e na alavancagem neste mercado com um "player" tão grande quanto o BCE. Segundo documento publicado recentemente pela autoridade monetária, "o Eurosistema está consciente do impacto potencial das suas compras na liquidez do mercado" ­ um problema que aconteceu com sua participação no mercado de "covered bonds", por exemplo, quando incluídos nas compras oficiais. 

Outra preocupação lembrada pelo Banco of America Merril Lynch (BofA) em análise sobre o tema é que custos muito baixos ou negativos de dívida podem redundar em más alocações de crédito e de capital e poderiam manter "viáveis" empresas ineficientes. 

De toda forma, segundo o BofA, o mercado europeu de bônus corporativos "pode dobrar de tamanho" em cinco anos. Significa que o montante de papéis poderia atingir € 2,5 trilhões até 2021. Dessa forma, o grande número de emissões recentes "poderia se tornar norma e não exceção". O banco lembra, como comparação, que foi isso que aconteceu nos EUA, cujo mercado praticamente dobrou em volume durante o programa de compras de ativos pelo Fed. 

A outra medida que entrará em ação agora em junho é uma nova rodada de TLTRO (operações "alvo" de refinanciamento de longo prazo) para dar solidez ao sistema bancário da zona do euro. Serão quatro operações, uma a cada trimestre a partir de junho, com maturidade de quatro anos cada. A última vencerá em março 2021. 

As novas projeções econômicas que serão divulgadas hoje devem concentrar as atenções do mercado. Especialmente a expectativa para a inflação da região. Analistas esperam uma revisão para cima do índice ponderado da zona do euro por conta da alta recente do petróleo. Em relação ao crescimento, não há apostas em alterações nas projeções. 

"Não esperamos quaisquer grandes mudanças para as previsões de crescimento", diz o BNP Paribas, em análise. "Ao contrário de abril, Draghi provavelmente tentará soar mais confiante na recuperação econômica da zona do euro e com a probabilidade de um aumento da inflação ao longo do tempo", diz o BNP.