Coteminas avalia possíveis aquisições, diz presidente

Veículo: Valor

Seção: Economia

A Coteminas, dona das marcas Santista, Artex, MMartan e Casa Moysés e controladora da Springs Global, examina possíveis aquisições em meio a ofertas que vem sendo apresentadas ao grupo. "Temos recebido um número grande de propostas e estamos olhando com calma", disse o presidente do grupo, Josué Gomes da Silva. Diante da observação de que os ativos estão baratos no Brasil, ele retrucou: "Barato é sempre um conceito relativo, temos que ver se vai ficar mais barato ou menos barato".

Indagado se o grupo tinha dinheiro para aquisições, o empresário não respondeu, lembrando que tinha de voltar para o debate. Apesar da crise econômica, o empresário considera que os resultados do grupo no primeiro trimestre foram significativos, mencionando aumento de vendas de 10%, alta de 35% na geração de caixa e de 63% no resultado operacional. O grupo fechou o ano passado com prejuízo de R$ 7 6 milhões por causa de impactos de equivalências patrimoniais de empresas coligadas "que não controlamos, somos investidores".

Como principal acionista do maior grupo têxtil da América Latina, Gomes da Silva veio a Genebra participar do primeiro grande encontro de empresários na Organização Mundial do Comércio (OMC), para examinar o potencial de futuros acordos de liberalização. De seu lado, o empresário insistiu que o setor têxtil brasileiro não é defensivo e que sua preocupação é que as condições sejam isonômicas, "porque senão é como colocar uma criança contra um campeão de boxe no ringue". Um dos fatores para condições de competitividade parecidas, a seu ver, é a taxa de câmbio.

Josué estima que o dólar a R$ 3,50 está equilibrado. Ele observou, porém, que, ainda que o cambio seja um dado importante, e todas as indústrias estejam trabalhando para exportar mais, leva tempo para conquistar novos mercados. Gomes da Silva afirma ser muito cedo para falar de impactos na economia real das medidas que o governo interino de Michel Temer está tomando no Brasil. Ele diz que o plano de limitar as despesas do Estado, dentro de certos parâmetros, "é coerente, vai ter alguma complementação, mas não existe coelho a ser retirado da cartola".

Destaca o consenso no Brasil sobre a necessidade urgente de medidas que estabilizem a relação dívida pública/PIB no médio e longo prazo. Porém, acha que o governo, em vez de usar a inflação passada, poderia ter usado a meta de inflação futura para frear as despesas públicas. "Uma das razões de nossa taxa de juros continuar alta é que uma parcela da economia brasileira continua indexada", diz. Ele evitou comentar a possibilidade de a presidente afastada Dilma Rousseff conseguir se livrar do impeachment e retomar o poder. "Infelizmente a política contaminou muito a economia no Brasil nos últimos 18 meses e vai continuar contaminando um pouco.

Mas nós, agentes econômicos, temos que nos distanciar um pouco disso e continuar trabalhando com o que temos", acrescentou. Segundo o Valor apurou, no debate fechado com empresários na OMC, Gomes da Silva propôs a negociação de regras sobre câmbio nas trocas internacionais. Na prática, ele reativou o debate que o Brasil trouxe no passado para o órgão e que a Confederação Nacional da Industria (CNI) disse em 2015 ser necessário continuar, sobre a busca de "remédios multilaterais"para câmbio manipulado. E com o cuidado de evitar o risco de o feitiço voltar contra o feiticeiro, ou seja, contra exportações brasileiras quando o câmbio estiver desvalorizado.

O presidente de Coteminas partiu logo que acabou o debate, no meio da tarde, mas sua proposta alimentou observações entre alguns participantes mais tarde. Em 2015, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) anunciou que pediria para o governo reativar a proposta sobre câmbio na OMC, praticamente engavetada por falta de impulso do próprio Brasil depois que o real desvalorizou. Para a CNI, o Brasil não podia ficar amarrado na "armadilha conjuntural". A entidade defendeu que o objetivo era distinguir o que é politica cambial legítima e o que é câmbio manipulado para ganhar vantagem no comércio.